Trafigura projeta até 3 milhões de toneladas de cobre para data centers em 2028. A dúvida entre os cenários vale mais que toda a Vale.
A trading Trafigura passou a trabalhar com dois números para a demanda de cobre dos data centers. A distância entre eles chega a 1,4 milhão de toneladas por ano e depende de quantos projetos anunciados vão sair do papel, não do preço do metal. A Vale, dona de Salobo e Sossego, prevê produzir de 360 mil a 380 mil toneladas de cobre em todo o ano de 2026.

A tese do cobre na inteligência artificial ganhou um segundo número nesta semana. No evento 2026 Base Metals, promovido pela Bloomberg em Londres na terça-feira, Henry Van, chefe de análise de metais industriais da Trafigura, disse que o consumo de cobre em data centers e computação em nuvem pode chegar a 2,5 milhões a 3 milhões de toneladas em 2028 se as hyperscalers cumprirem todos os seus planos de investimento [Bloomberg via Bloomberg Línea, 21 Oct 2026]. Esse não é o cenário-base. A Trafigura estima que o segmento consome cerca de 1 milhão de toneladas neste ano e, como o mercado duvida que todos os projetos sejam concluídos, trabalha com 1,6 milhão de toneladas em 2028, alta de 60% [Bloomberg via Bloomberg Línea, 21 Oct 2026].
Os dois números importam, mas o que mais pesa é a diferença entre eles. Pelas contas do Tantalum, o cenário-base acrescenta cerca de 600 mil toneladas de demanda em dois anos. O cenário de construção integral acrescenta de 1,5 milhão a 2 milhões. A diferença, de 900 mil a 1,4 milhão de toneladas por ano em 2028, é uma aposta em obra, licença e conexão à rede elétrica, não em metal. O próprio Van deixou isso claro ao falar de preço: quem constrói data center não é sensível ao preço. “They do not care about the price of copper”, afirmou [Briefs Finance, 20 Oct 2026].
O que está acontecendo
- Uma trading, duas projeções. Para 2028, a Trafigura projeta 1,6 milhão de toneladas de cobre em data centers no cenário-base e de 2,5 milhões a 3 milhões se todos os planos das hyperscalers forem executados, ante cerca de 1 milhão neste ano [Bloomberg via Bloomberg Línea, 21 Oct 2026]. Pelas contas do Tantalum, o teto equivale a 2,5 a 3 vezes o consumo atual.
- O crescimento já vem dos data centers. O economista-chefe da Trafigura, Saad Rahim, disse em seminário da LME na segunda-feira que a construção de data centers ainda responde por uma fatia pequena da demanda total de cobre, mas que, sem o seu avanço acelerado, a demanda global cairia neste ano [Bloomberg via Bloomberg Línea, 21 Oct 2026]. No debate da LME Week, Graeme Train, também da Trafigura, afirmou que a demanda de cobre cresceu 2,7 milhões de toneladas nos últimos cinco anos e que setores tradicionais, como construção, automóveis e eletrodomésticos, “have contributed effectively nothing” para esse aumento [Fastmarkets, 20 Oct 2026].
- Fatia ainda pequena. Os debatedores estimaram em cerca de 3% a parcela da demanda de cobre ligada a data centers [Fastmarkets, 20 Oct 2026]. Para Train, dá para somar mais 1 milhão de toneladas “quite easily over the next five years”, talvez 2 milhões [Fastmarkets, 20 Oct 2026].
- A oferta deve reagir. Van espera que os preços altos elevem a oferta em 2 milhões de toneladas no ano que vem [Bloomberg via Bloomberg Línea, 21 Oct 2026]. O cobre na LME estava em cerca de US$ 14.361 por tonelada na terça-feira, abaixo do recorde de US$ 14.875 do mês passado [Bloomberg via Bloomberg Línea, 21 Oct 2026].
- A plateia ficou menos convicta. Antes do debate da LME, o cobre levou quase três quartos dos votos do público; depois, ficou com metade, e o estanho, com 26,5% [Fastmarkets, 20 Oct 2026].
Brasil
A Vale, dona das minas de Salobo e Sossego, no Pará, opera em outra escala. Em 30 de julho, a companhia estreitou a projeção de cobre para 2026 para 360 mil a 380 mil toneladas, ante 350 mil a 380 mil [Vale 6-K, 30 Jul 2026]. No primeiro semestre, produziu 200,7 mil toneladas, das quais 98,4 mil no segundo trimestre, com 52,4 mil vindas de Salobo e 25,9 mil de Sossego [Vale 2Q26 production report, 21 Jul 2026]. Pelas contas do Tantalum, a distância entre os dois cenários da Trafigura para 2028, de 900 mil a 1,4 milhão de toneladas, equivale a algo entre 2,4 e 3,9 vezes toda a produção de cobre prevista pela Vale para o ano. Mesmo o acréscimo do cenário mais cauteloso, de cerca de 600 mil toneladas, corresponde a 1,6 a 1,7 vez essa projeção.
O ativo a acompanhar neste trimestre é Sossego. A Vale maximizou a operação da usina no segundo trimestre antes de uma reforma de 110 dias no moinho SAG, com início previsto para agosto, sendo nove semanas de parada no terceiro trimestre e seis no quarto [Vale 2Q26 production report, 21 Jul 2026]. Segundo a empresa, a reforma é fundamental para ampliar a capacidade de processamento de Sossego para 15 milhões de toneladas por ano, e um britador móvel deve compensar parte da parada [Vale 2Q26 production report, 21 Jul 2026]. A Vale divulga os números do terceiro trimestre em 29 de outubro, pela primeira vez num relatório de desempenho único, que reúne produção, vendas e resultado financeiro [Investidor10, 1 Oct 2026].
Para o Brasil, a questão não é Carajás suprir a lacuna da IA. Não vai. A questão é que um mercado cuja demanda marginal ignora preço paga por toneladas confiáveis, e o concentrado brasileiro é tonelada confiável num mundo em que, nas palavras de Train, “concentrates are not really growing that much” [Fastmarkets, 20 Oct 2026].
Estados Unidos
Washington já puxa o metal para dentro de casa. No debate da LME, Train disse: “If the US has built about 900,000 tonnes of copper this year, that’s like a quarter of supply growth diverted to the US”. Acrescentou que “it’s perhaps only the US that has really taken very strong action to secure the copper” de que precisa [Fastmarkets, 20 Oct 2026]. Na semana passada, a Mercuria informou que 12 mil toneladas de cobre da República Democrática do Congo entraram no Project Vault, a reserva americana de minerais críticos. O lote faz parte do compromisso da estatal Gecamines de enviar aos EUA, em 2026, 100 mil toneladas da sua participação de 20% na produção de Tenke Fungurume [Reuters via Kitco, 15 Oct 2026]. Para uma mineradora estatal africana, a demanda da IA chega na forma de contrato de estoque estratégico americano, não de pedido de data center.
China
A oferta que deveria responder à projeção de Van é, em boa parte, capital chinês. Segundo Train, cerca de 75% de toda a oferta de mina acrescentada nos últimos dez anos “has had some form of Chinese equity backing”, e a China seguirá construindo fundições até deixar de precisar importar cobre refinado [Fastmarkets, 20 Oct 2026]. Se as hyperscalers caminharem para o cenário de 3 milhões de toneladas, boa parte do metal que vai atendê-lo terá passado antes por minas financiadas pela China ou por fornos chineses.
O que isso significa
Na semana passada, o grupo internacional de estudos do cobre projetou excedente de refinado em 2027 ao mesmo tempo que passou a citar a IA como vetor de demanda, e o Tantalum argumentou que a escassez está na mina, não no metal em estoque (O grupo de estudos do cobre agora cita a IA). Os dois números da Trafigura reforçam esse ponto: o tamanho da demanda de cobre da IA em 2028 passou a depender sobretudo de quantos campi anunciados serão de fato construídos, e essa resposta pode mover a demanda em mais de uma Vale por ano, para cima ou para baixo. Se Van estiver certo, não é o preço que vai racionar essa demanda. São os atrasos. Isso torna o cobre o insumo mais exposto aos prazos de licenciamento e de conexão à rede, mais do que à sua própria curva de custo, e indica que um comprador pouco sensível a preço continuará pagando prêmio por oferta garantida. A Aurubis já fixou prêmio recorde de US$ 347 por tonelada para a Europa em 2027, alta de 10% sobre os US$ 315 deste ano [Reuters via Kitco, 14 Oct 2026].
O que acompanhar
- Resultado do terceiro trimestre da Vale, em 29 de outubro. Quanto a reforma do moinho SAG de Sossego tirou da produção e se a empresa mantém a projeção de 360 mil a 380 mil toneladas [Vale 6-K, 30 Jul 2026; Investidor10, 1 Oct 2026].
- Prêmios da Codelco para 2027 na Ásia. Albert Mackenzie, da Benchmark, disse que será interessante ver se os prêmios da Codelco, sobretudo na Ásia, acompanham a alta da Aurubis [Reuters via Kitco, 14 Oct 2026]. Na Europa, a resposta já veio: a Codelco fixou prêmio recorde de US$ 350 por tonelada para 2027, ante US$ 325 em 2026 [SMM, 21 Oct 2026]. Um prêmio recorde também na Ásia indicaria que a demanda insensível a preço já chegou aos contratos anuais da região.
- Qual cenário as hyperscalers vão bancar. A próxima rodada de projeções de investimento das hyperscalers é o teste direto para saber se vale modelar o cenário-base de 1,6 milhão de toneladas da Trafigura ou o de 2,5 milhões a 3 milhões com todos os projetos construídos.


