Grupo de estudos do cobre já conta com a IA na demanda e ainda prevê excedente três vezes maior em 2027

O International Copper Study Group projeta sobra de 104 mil toneladas de cobre refinado neste ano e de 368 mil toneladas em 2027, porque as fundições da Indonésia, da Índia e da Europa crescem mais rápido que o consumo. A escassez de que tanto se fala no mercado da IA está na mina, não no metal pronto.

Tantalum Strategy Desk · 6 MIN
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Fileiras de placas de catodo de cobre na casa de eletrólise de uma refinaria, com uma ponte rolante amarela içando um conjunto de catodos.
Foto: Xstrata Technology · CC BY-SA 3.0

Há dois anos a tese de alta do cobre se apoia nos data centers. Em 14 de outubro, o organismo que faz a contabilidade do setor incluiu a inteligência artificial na sua lista de vetores de demanda e, no mesmo comunicado, previu que o mundo vai produzir mais cobre refinado do que consome em 2026 e em 2027, com folga crescente. As duas coisas não se contradizem. Elas mostram onde está o aperto de fato: no concentrado que sai das minas, e não no catodo que sai das refinarias. Há duas semanas, esta redação mostrou que o órgão antitruste chinês tratava a fusão entre Anglo American e Teck como uma ordem de compra de concentrado (O veto do cobre da China não tem nada a ver com concorrência). Os números do ICSG explicam por que os donos de fundições se preocupam tanto com matéria-prima.

Foto: catodos de cobre na casa de eletrólise de uma refinaria que usa a tecnologia IsaKidd, cedida pela Xstrata Technology. Não se trata de nenhuma das usinas citadas na previsão do ICSG.

O que está acontecendo

  • A sobra aumenta. O International Copper Study Group (ICSG) prevê excedente de 368 mil toneladas de cobre refinado em 2027, ante 104 mil toneladas em 2026, segundo as projeções divulgadas depois das reuniões do grupo em Lisboa. O número de 2026 ficou um pouco acima das 96 mil toneladas estimadas em abril [Canadian Mining Journal, 14 de outubro de 2026]. Pela conta desta redação, 368 mil equivalem a cerca de 3,5 vezes 104 mil. A previsão anterior, que a IndexBox publicou com o mesmo número de 96 mil toneladas para 2026, apontava excedente de 377 mil toneladas em 2027 [IndexBox, 30 de junho de 2026]. Ou seja, a estimativa para o ano que vem praticamente não mudou.
  • Quem puxa são as fundições, não as minas. A produção mundial de refinado deve subir só 0,4% em 2026 e acelerar para 3,4% em 2027, com a entrada em operação de fundições e refinarias na Indonésia, na Índia e na União Europeia, taxas de operação melhores no Chile e mais produção a partir de sucata. A produção secundária, feita de sucata, deve crescer cerca de 4,7% em 2027, e a primária, incluindo SX-EW, cerca de 3% [Canadian Mining Journal, 14 de outubro de 2026].
  • A mina é o elo fraco. O crescimento da produção das minas em 2026 foi revisado de 1,6% para 1,3%, depois de cortes nas estimativas para Chile, China e Indonésia. Grasberg, na Indonésia, e Kamoa-Kakula, na República Democrática do Congo, seguem limitadas por incidentes ocorridos em 2025, e a produção chilena está em queda. Para 2027, o grupo espera alta de 3,1% na mineração [Canadian Mining Journal, 14 de outubro de 2026].
  • A demanda foi cortada. O consumo de refinado deve crescer 1,5% em 2026 e 2,5% em 2027. A projeção de 2026 caiu em relação a abril por causa de expectativas mais fracas para Oriente Médio, América do Norte e União Europeia [Canadian Mining Journal, 14 de outubro de 2026]. A previsão anterior trazia 1,6% para 2026 e 2% para 2027 [IndexBox, 30 de junho de 2026]: a demanda de 2027 subiu e o excedente quase não se mexeu.
  • A IA entrou na lista. O ICSG cita transição energética, urbanização, digitalização e investimento em infraestrutura de IA como vetores de demanda de longo prazo, e a previsão registra um descompasso entre a capacidade de processamento em expansão e o crescimento mais modesto do consumo, apesar da demanda vinda da eletrificação, da IA e dos data centers [Canadian Mining Journal, 14 de outubro de 2026].

Por que o tema é de IA

Data centers consomem cobre na forma de metal refinado: barramentos, cabos, transformadores e circuitos de refrigeração começam como catodo. O relatório Energy and AI, da Agência Internacional de Energia, estimou a demanda de cobre dos data centers em 512 mil toneladas em 2030, cerca de 2% da demanda de cobre de 2024 [The Oregon Group, citando a AIE, 10 de abril de 2025]. Pela conta desta redação, só o excedente previsto pelo ICSG para 2027 equivale a cerca de 72% do que a AIE espera que os data centers consumam em todo o ano de 2030. São anos e métodos diferentes, então a comparação serve para dar escala, não como previsão. Ainda assim, pelos números do ICSG, não será a falta de metal refinado que vai impedir uma big tech de energizar um campus em 2027. O gargalo está antes, onde as fundições disputam concentrado e onde a previsão de crescimento das minas acaba de cair.

O Brasil nessa conta

O crescimento do cobre brasileiro vem da mina, justamente a parte escassa da cadeia. O projeto de flotação de partículas grossas da Vale Base Metals em Salobo, na região de Carajás e maior operação de cobre do país, acrescenta até cerca de 30 mil toneladas de cobre por ano, contidas em concentrado, com partida prevista para o primeiro semestre de 2028 [Vale Base Metals via Macau Business, agosto de 2026]. A empresa projeta produzir cerca de 700 mil toneladas de cobre por ano até 2035 [mesma fonte]. Pela conta desta redação, o acréscimo de Salobo corresponde a cerca de 8% do excedente de 2027 e chega depois que a janela de previsão do ICSG se fecha. Esta redação tratou do projeto quando ele foi aprovado (A Vale acaba de somar 30 mil toneladas de cobre sem abrir uma nova mina).

Num mercado com sobra de refinado e concentrado apertado, esse é o lado mais confortável da cadeia. Quando falta matéria-prima, ganha quem é dono do minério. Nenhuma das fundições e refinarias em expansão citadas pelo ICSG fica no Brasil; elas estão na Indonésia, na Índia e na União Europeia [Canadian Mining Journal, 14 de outubro de 2026]. Na leitura desta redação, o Brasil vende para o gargalo, mas não controla a etapa de processamento.

Estados Unidos

A América do Norte está entre as regiões em que o ICSG reduziu a expectativa de consumo para 2026 [Canadian Mining Journal, 14 de outubro de 2026], mesmo com a infraestrutura de IA na lista de vetores de demanda. A variável americana mais importante, porém, é uma data. A proclamação de 2025 sobre o cobre determinou que o secretário de Comércio entregasse ao presidente, até 30 de junho de 2026, uma atualização sobre o mercado doméstico, incluindo a capacidade de refino, para que o presidente decidisse se uma tarifa universal escalonada sobre cobre refinado, de 15% a partir de 1º de janeiro de 2027 e de 30% a partir de 1º de janeiro de 2028, se justifica [Federal Register, 5 de agosto de 2025]. Uma busca desta redação no Federal Register encontrou três atos presidenciais de 2026 que ajustam tarifas sobre metais, publicados em 9 de abril, 4 de junho e 23 de julho, e nenhum deles menciona cobre refinado ou catodo [Federal Register, busca desta redação nos atos presidenciais de 2026, 15 de outubro de 2026]. Uma tarifa sobre o refinado cairia sobre um mercado que o ICSG enxerga com sobra.

China

A China é o número que decide a conta. O país responde por 59% do consumo mundial de cobre refinado e deve elevar seu consumo aparente em 2,5% neste ano, enquanto a demanda no resto do mundo fica praticamente estável [Canadian Mining Journal, 14 de outubro de 2026]. O ICSG alerta que o consumo aparente chinês não inclui variações de estoques não declarados de órgãos estatais, produtores, consumidores e tradings, e que esses movimentos podem alterar de forma relevante o balanço global [mesma fonte]. Na leitura desta redação, variações de estoque desse tipo poderiam compensar um excedente desse tamanho sem que nenhum data center entrasse na história. A mesma proclamação americana de 2025 afirma que um único país estrangeiro controla mais de 50% da capacidade mundial de fundição e quatro das cinco maiores refinarias [Federal Register, 5 de agosto de 2025]. É esse parque de fundições que agora disputa a matéria-prima que as revisões das minas acabaram de tirar do mercado.

O que isso significa

A história do cobre se divide em duas. O metal refinado, que é o que vai para os data centers, parece bem abastecido até 2027 segundo a própria previsão do setor, que já cita a IA como vetor de demanda. O concentrado, que é o que as mineradoras vendem, continua sendo a restrição, com Grasberg, Kamoa-Kakula e Chile citados como freios. Isso muda onde se ganha dinheiro. Mineradoras brasileiras e africanas têm o insumo escasso, fundições chinesas, indonésias e indianas têm a capacidade, e a política americana ainda decide se vai tributar o metal pronto. O índice TAI desta redação, de materiais para IA, estava em 96,8 em 11 de outubro, queda de 3,2% no ano [índices Tantalum, posição de 11 de outubro de 2026]. Uma previsão de excedente que já cita a demanda da IA dá pouco apoio a uma aposta pura em cobre refinado como reflexo da expansão dos data centers.

O que acompanhar

  1. 1º de janeiro de 2027. Data de início da tarifa escalonada de 15% sobre cobre refinado, caso o presidente aja com base na atualização do Departamento de Comércio [Federal Register, 5 de agosto de 2025]. Pela conta desta redação, faltam cerca de 11 semanas. Uma proclamação voltaria a abrir a diferença entre os preços nos Estados Unidos e em Londres num mercado que o ICSG vê com sobra.
  2. Kamoa-Kakula, Grasberg e Zâmbia. O crescimento de 3,1% das minas em 2027 depende da recuperação na Indonésia e na RDC e de produção melhor no Chile e na Zâmbia [Canadian Mining Journal, 14 de outubro de 2026]. Qualquer atraso ali transforma a sobra de refinado de novo numa briga por concentrado.
  3. A próxima previsão do ICSG, no primeiro semestre de 2027. O comunicado de previsão anterior, listado na página do grupo, é de abril de 2026 [página do ICSG, consultada em 15 de outubro de 2026]; se o calendário se repetir, a próxima sai por volta de abril de 2027. Se o excedente de 2027 se mantiver perto de 368 mil toneladas, já com a IA entre os vetores de demanda, o prêmio dos data centers no cobre depende das minas, não do metal.

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