Alcoa vende uma fundição parada em Nova York para data centers e aposta o alumínio em São Luís

Em 15 de outubro, a Alcoa informou a venda de parte do complexo de Massena East, desativado desde 2014, por até US$ 315 milhões, com pagamento atrelado à capacidade de data center aprovada. No mesmo balanço, anunciou a conclusão da retomada da Alumar, no Maranhão. Nos Estados Unidos, terreno de fundição vira campus de computação. No Brasil e na África do Sul, a Alcoa compra mais metal.

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A longa casa de força de concreto da hidrelétrica Moses-Saunders, no rio São Lourenço, com a água correndo junto à sua base.
Foto: U.S. Fish and Wildlife Service · Public domain

Uma fundição de alumínio é, antes de tudo, um contrato de energia com uma fábrica em volta. Durante boa parte da última década, uma fundição americana parada era um passivo: terreno, subestação e conta de descomissionamento. A expansão da inteligência artificial mudou esse preço. O que o setor de data centers compra hoje em Kentucky e em Nova York não são as cubas eletrolíticas, e sim os megawatts e as linhas que um dia as alimentaram. A pergunta que este texto faz é para onde vai o alumínio quando a energia muda de dono.

Foto: a hidrelétrica Moses-Saunders, no rio São Lourenço, cuja produção a imprensa local usa como referência para dimensionar o projeto de data center em Massena. Não é uma foto do terreno da Alcoa.

O que está acontecendo

  • Em 15 de outubro, a Alcoa divulgou o resultado do terceiro trimestre de 2026 e informou ter assinado contratos definitivos para vender partes do complexo de Massena East, em Nova York. A empresa espera receber de US$ 50 milhões a US$ 65 milhões no fechamento, “depending on the amount of approved data center capacity”, e mais US$ 60 milhões a US$ 250 milhões em sete anos, conforme a expansão da capacidade, num total potencial de até US$ 315 milhões. O fechamento está previsto para os próximos seis meses e depende de licenças, aprovações regulatórias e das condições para o início das obras [Alcoa 3Q26 release, SEC 8-K, 15 October 2026].
  • A Alcoa não revelou o comprador. Massena East está parada desde 2014, e o presidente-executivo, William Oplinger, disse a analistas que um data center será construído no local. É o primeiro negócio dentro da meta da companhia de levantar entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão com “asset monetization” até 2030 [Manufacturing Dive via Yahoo Finance, 16 October 2026].
  • Segundo a North Country Public Radio, a New York Digital Investment Group (NYDIG) e sua afiliada North Country Colocation Services estão por trás de um projeto de 1,5 milhão de pés quadrados e 635 MW no antigo complexo Alcoa East e Reynolds. A carga equivale a cerca de 70% da energia gerada pela hidrelétrica Moses-Saunders, vizinha ao terreno [North Country Public Radio, 7 October 2026].
  • No mesmo balanço, a Alcoa informou ter concluído a retomada da fundição da Alumar, no Brasil, no terceiro trimestre, elevou a produção de alumínio pelo sexto trimestre seguido, para 649 mil toneladas, e lucrou US$ 483 milhões [Alcoa 3Q26 release, 15 October 2026].
  • Também em 15 de outubro, acionistas da South32 aprovaram, com 99,18% dos votos, a venda à Alcoa de suas participações na Worsley Alumina, na Hillside Aluminium, em Richards Bay, na mina de bauxita da MRN e na refinaria e na fundição da Alumar, por até US$ 5,6 bilhões [BusinessDay, 15 October 2026].

O modelo de Kentucky

Massena segue um roteiro estreado neste ano em Kentucky. A Century Aluminum concluiu em 2 de fevereiro a venda da fundição parada de Hawesville a uma afiliada da TeraWulf, por US$ 200 milhões em dinheiro e uma fatia de 6,8% na empresa que constrói ali um data center de IA. A Century pode obrigar o sócio majoritário a comprar essa fatia por US$ 300 milhões a partir de um ano depois de o local passar a entregar pelo menos 375 MW de carga de TI crítica [Century Aluminum 10-Q, SEC, filed for the quarter to 30 June 2026].

O inquilino já é conhecido. A Anthropic assinou em 6 de julho um contrato de locação de 20 anos para cerca de 401 MW de capacidade de TI crítica em Hawesville. Em 21 de agosto, o regulador de Kentucky aprovou um contrato de fornecimento de 482 MW com as cooperativas Big Rivers Electric e Kenergy, o mesmo volume de capacidade de transmissão que a comissão considerou ainda disponível no local. A TeraWulf estima de US$ 4 bilhões a US$ 4,5 bilhões para preparar o terreno e erguer os primeiros galpões de servidores, e espera começar a entregar capacidade no fim de 2027 [ENR, 25 August 2026].

Os dois negócios têm a mesma estrutura. O pagamento da Alcoa em Massena cresce com a capacidade de data center aprovada, e a opção de venda da Century é acionada pela carga de TI entregue. Os vendedores estão sendo pagos em megawatts, na leitura desta redação sobre os dois documentos.

Brasil

No mesmo trimestre em que colocou um terreno em Nova York no mercado de data centers, a Alcoa terminou de religar uma fundição brasileira. A Alumar, em São Luís, tem três linhas de cubas e capacidade operacional de 447 mil toneladas por ano. Quando anunciou a retomada, em 2021, a Alcoa citou “competitive, renewable power arrangements” e o plano de operar a fundição com 100% de energia renovável até 2024 [Light Metal Age, 4 October 2021]. A retomada só foi concluída no terceiro trimestre de 2026 [Alcoa 3Q26 release, 15 October 2026].

A parcela da Alcoa na capacidade da Alumar era de 268 mil toneladas em 2021, cerca de 60% do total, pelas contas desta redação com os números da Light Metal Age. Com os 40% da South32 na fundição, a Alcoa passaria a deter a totalidade dela, também pelas contas da redação, além de 36% da refinaria da Alumar e 33% da mina da MRN, neste caso sujeito ao direito de preferência dos sócios da MRN. A conclusão é esperada no primeiro semestre de 2027 [South32 transaction memorandum, SEC filing, 10 September 2026].

Esse é o lado brasileiro da troca. O país também constrói data centers: a JLL contou 106 MW entregues no primeiro semestre de 2026, mais 134 MW previstos até dezembro e vacância nacional de 4% [JLL, 14 August 2026]. São números pequenos diante de uma única proposta de 635 MW em Massena, pelas contas da redação. Na Alumar, ao menos, a energia brasileira continua indo para o metal.

Estados Unidos

A restrição americana é de licença, não de demanda. Um decreto da governadora Kathy Hochul limita temporariamente novos data centers de grande porte acima de 50 MW, ao suspender novas licenças discricionárias estaduais. Autoridades de Massena dizem que a afiliada da NYDIG pediu suas licenças em 2020 e não precisa de novas, o que poderia isentá-la. O governo estadual não confirmou, e o projeto ainda passa por revisão ambiental estadual [North Country Public Radio, 7 October 2026]. A região de Massena avalia dez propostas de data center, e o chefe da agência local de desenvolvimento advertiu que isso não significa que todas sairão do papel [WWNY, 27 May 2026].

É por isso que uma antiga fundição vale dinheiro. Ela chega com energia já alocada, transmissão já construída e, no caso de Massena, licenças já protocoladas. Cada um desses itens é uma fila em que um desenvolvedor de IA teria de esperar.

China

A China não consegue fazer a mesma troca, porque suas fundições têm teto. A produção chinesa de alumínio bateu recorde mensal de 3,98 milhões de toneladas em agosto, alta de 4,7% sobre um ano antes, e somou 31,12 milhões de toneladas de janeiro a agosto. A Mysteel calcula um ritmo anualizado de cerca de 46,7 milhões de toneladas, acima do limite de capacidade de 45 milhões de toneladas em vigor desde 2017, puxado por margens fortes depois das interrupções de oferta ligadas ao conflito no Oriente Médio [Mysteel, 22 September 2026]. O maior produtor do mundo já opera acima do próprio teto, de modo que nova oferta primária terá de vir de outro lugar, na leitura desta redação.

África

Na África, quem decide também é a energia. A fundição de Mozal, da South32, em Moçambique, foi colocada em hibernação em março porque a empresa não conseguiu garantir “sufficient and affordable long-term power supply” [BusinessDay, 15 October 2026], e ficou fora do negócio com a Alcoa [South32 transaction memorandum, 10 September 2026]. Hillside, em Richards Bay, na África do Sul, está incluída. A Alcoa compra a fundição africana que ainda tem energia e deixa de lado a que perdeu a sua.

O que isso significa

O insumo decisivo para uma fundição e para um data center é o mesmo: energia barata e firme, com conexão já instalada. Nos Estados Unidos, essa energia passou a render mais como computação. Os 482 MW contratados em Hawesville e a proposta de 635 MW em Massena somam mais de um gigawatt de carga de data center planejada em dois antigos terrenos de fundição, pelas contas da redação, e nenhum dos dois campi está em operação.

O capital da própria Alcoa aponta na direção oposta: uma retomada concluída no Maranhão, a compra de participações em ativos no Brasil, na Austrália e na África do Sul por US$ 5,6 bilhões e a saída de um terreno americano parado desde 2014. Para o Brasil, a oportunidade é ser o lugar onde o alumínio é produzido enquanto os Estados Unidos transformam seus terrenos de fundição em computação. O risco é que a própria fila brasileira de data centers acabe disputando os mesmos megawatts renováveis.

O índice TAI, desta redação, que acompanha os insumos físicos da expansão da IA, estava em 92,1 no recálculo de 17 de outubro.

O que acompanhar

  1. Fechamento em Massena, previsto até cerca de abril de 2027. A Alcoa disse em 15 de outubro que espera concluir a venda em seis meses. O valor pago no fechamento, entre US$ 50 milhões e US$ 65 milhões, vai mostrar quanta capacidade de data center os reguladores aprovaram.
  2. Se o decreto de Hochul alcança Massena. Uma decisão estadual exigindo novas licenças para o projeto de 635 MW travaria o modelo em Nova York.
  3. Conclusão do negócio entre Alcoa e South32 no primeiro semestre de 2027. Vale observar o direito de preferência dos sócios da MRN, as aprovações regulatórias no exterior e se a Alcoa anuncia outros terrenos dentro do plano de levantar de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão.

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