Governo anuncia uma das maiores separadoras de terras raras fora da China em Poços de Caldas. O orçamento de US$ 498 milhões do Caldeira não inclui a planta.
O ministro Alexandre Silveira disse ao MINING.COM que a Lynas apresentou o projeto de uma planta de separação de óxidos no sul de Minas, e o BNDES avalia financiá-la. Nos documentos ao mercado, a Lynas segue tratando o processamento no Brasil como possibilidade. Caberá ao novo conselho de minerais críticos arbitrar essa diferença.

Em 1º de outubro, esta mesa mostrou que a Lynas pagava ágio de 68% pelo maior depósito de argila iônica do Brasil enquanto a etapa que transforma o minério em insumo para ímãs continuava no papel (Lynas paga 68% acima do mercado). Onze dias depois, o governo fala dessa etapa como decidida. A empresa, não. Este texto trata da distância entre as duas versões e de quem está sendo chamado a encurtá-la.
O que está acontecendo
- A versão do ministro. A Lynas Rare Earths apresentou o projeto de uma planta de separação de óxidos de terras raras em Minas Gerais, segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, em declarações ao MINING.COM. O governo estuda apoiar um empreendimento que pode virar uma das maiores unidades do tipo fora da China. “Poderemos ter em solo brasileiro uma das maiores plantas industriais de terras raras fora da China”, disse o ministro em resposta por escrito, que situa a planta na região de Poços de Caldas [MINING.COM, 12 de outubro de 2026].
- O dinheiro ainda não está definido. O BNDES avalia um possível financiamento, segundo pessoas a par das conversas, e deve fazer uma visita técnica às operações da Lynas na Austrália até o fim de 2026. A estrutura de financiamento e a decisão final de investimento seguem em aberto. A Lynas não respondeu às perguntas do MINING.COM até a publicação [MINING.COM, 12 de outubro de 2026].
- A versão da empresa. Nos comunicados ao mercado australiano, a Lynas fala apenas em “potencial” para processar no Brasil e não informa valor de investimento, localização, capacidade nem cronograma da unidade [Convergência Digital, 1º de outubro de 2026]. Daniel Havas, vice-presidente de Estratégia e Relações com Investidores, disse que a compra permite à empresa “avaliar, com o tempo, o potencial de desenvolvimento de atividades de processamento no Brasil” e que “não há nada definido de forma imutável”. Segundo a mesma reportagem, Lynas e Meteoric trabalham para que o carbonato de Caldas possa ser refinado na planta da Lynas na Malásia [O Fator, 1º de outubro de 2026].
- O orçamento que existe é o da mina. O estudo de viabilidade definitivo da Meteoric atribui ao Caldeira um recurso de 1,63 bilhão de toneladas com teor de 2.317 ppm de óxidos de terras raras totais e produção média de cerca de 12,5 mil toneladas por ano ao longo de 23 anos. O capital inicial estimado, de aproximadamente US$ 498 milhões, não inclui o custo de uma planta de separação de óxidos em larga escala [MINING.COM, 12 de outubro de 2026].
- O negócio ainda não fechou. A Lynas compra 100% da Meteoric numa operação integralmente em ações avaliada em A$ 968 milhões [CNN Brasil, 1º de outubro de 2026], cerca de US$ 672 milhões [MINING.COM, 12 de outubro de 2026]. Os acionistas da Meteoric votam em janeiro de 2027. Se o aval brasileiro for negado ou vier com condições sem acordo entre as partes, a transação pode ser encerrada, e a Lynas pode ter de pagar à Meteoric uma multa de A$ 8,8 milhões [TV Sim Brasil, 1º de outubro de 2026]. Pelo cálculo da redação, a multa equivale a cerca de 0,9% do valor do negócio.
Por que o tema é de materiais para IA
A separação é a etapa que transforma o carbonato misto em óxidos de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, matéria-prima dos ímãs sinterizados. A Sprott Asset Management passou a tratar a IA como o terceiro vetor estrutural da demanda por terras raras, ao lado de defesa e eletrificação, e lembra que os cinco maiores operadores de data centers de hiperescala prometeram investir US$ 400 bilhões em 2025 [SMM, citando a Sprott, 24 de julho de 2026]. A gestora observa que ímãs de terras raras estão em sistemas de refrigeração, armazenamento, semicondutores e equipamentos de comunicação dos data centers, e a IEA projeta que os data centers de IA consumirão cerca de 3% das terras raras para ímãs até 2030 [Geomechanics.io, citando a Sprott e a IEA, 18 de julho de 2026]. Três por cento é pouco. Mas é uma fatia de um mercado em que o gargalo está justamente na separação, e por isso importa mais onde fica a separadora do que onde se abre mais uma cava de argila.
O lado brasileiro
A planta seria o primeiro teste real da Lei 15.506, a lei de minerais críticos sancionada em setembro. Ela criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (Cimce), que pode homologar ou travar mudanças de controle em empresas com direitos minerários sobre minerais críticos [TV Sim Brasil, 1º de outubro de 2026]. A CNN Brasil informou que o conselho pode aprovar a compra com condições, o que abre espaço para exigir inclusive a construção de uma planta de separação no país [CNN Brasil, 1º de outubro de 2026]. Agora Silveira disse com todas as letras como quer usar o colegiado: o Cimce “deve ter papel importante nessa estratégia, usando mecanismos de financiamento e regulatórios para estimular as empresas a ampliar beneficiamento, processamento, separação, refino e transformação de minerais críticos e estratégicos no Brasil” [MINING.COM, 12 de outubro de 2026, em tradução da mesa].
É o incentivo e a exigência na mesma mão. Pessoas a par da posição do governo disseram ao MINING.COM que há pouca resistência à aquisição em si, vista como modelo para atrair capital estrangeiro à mineração com compromissos de processamento local. Os técnicos do governo também enxergam Poços de Caldas como um polo capaz de receber material de outros projetos de argila iônica da região [MINING.COM, 12 de outubro de 2026]. Um dos candidatos é o Colossus, da Viridis Mining, que produziu seu primeiro carbonato misto numa planta de demonstração em Poços de Caldas, tem carta de intenções com a Solvay para fornecimento de longo prazo e mira o início da produção no primeiro semestre de 2028 [Viridis, relatório trimestral à ASX, 24 de julho de 2026]. Uma separadora regional daria aos produtores de carbonato do sul de Minas uma opção de separação dentro do país.
O lado americano
O financiamento federal dos Estados Unidos registrado no Brasil até aqui foi para projetos de mineração. A Serra Verde obteve um pacote de US$ 565 milhões da US International Development Finance Corporation (DFC), e a Aclara recebeu US$ 5 milhões da mesma agência para desenvolvimento de projeto [AP via BNN Bloomberg, 20 de agosto de 2026]. Pelo cálculo da redação, só o pacote da DFC para a Serra Verde é cerca de 13% maior que todo o orçamento da mina do Caldeira. No Congresso americano, avança um pacote de quatro projetos de lei sobre licenciamento e estoques estratégicos; o Critical Mineral Dominance Act passou na Câmara por 224 a 195 e aguarda o Senado [Tech Times, 6 de outubro de 2026]. Nada disso constrói uma separadora em Minas Gerais. Se o BNDES acabar financiando uma, quem ficará com a etapa mais valiosa de uma cadeia fora da China, em território brasileiro, será o Brasil, não os Estados Unidos.
O lado chinês
A China responde por cerca de 69% da produção mundial de terras raras na mina, até 91% da capacidade de refino e separação e 94% da produção de ímãs permanentes sinterizados [Tech Times, 6 de outubro de 2026]. Pequim suspendeu até 10 de novembro de 2026 o pacote de controles de exportação de outubro de 2025, como parte de uma trégua comercial, e até 6 de outubro nenhuma prorrogação formal tinha sido anunciada. Os controles de abril de 2025 sobre sete elementos, entre eles disprósio e térbio, nunca foram suspensos e continuam em vigor [Tech Times, 6 de outubro de 2026]. O carbonato do Caldeira embarcado para a Malásia fica fora da China. Óxidos separados em Poços de Caldas levariam para o Brasil, e não para a Ásia, a separação justamente das terras raras pesadas alcançadas pelos controles de abril.
O que isso significa
O governo faz o que governos fazem com um negócio que depende do seu aval: descreve o resultado que deseja como se já estivesse acertado. A Lynas faz o que uma companhia aberta faz antes da decisão final de investimento: não promete nada. As fontes do MINING.COM dizem que a negociação está mais adiantada do que os comunicados da Lynas sugerem e atribuem a cautela às aprovações pendentes e às regras de divulgação [MINING.COM, 12 de outubro de 2026]. As duas coisas podem ser verdade. O que nenhum dos lados apresentou foi capacidade, valor de investimento ou data. Até que um desses números apareça, a planta é posição de negociação, e os US$ 498 milhões do estudo de viabilidade continuam descrevendo uma mina que exporta carbonato.
Os índices mostram pouco apetite por esse risco. O SOV50, que acompanha os ativos que se valorizam quando a oferta concentrada aperta, caiu 1,82% na última atualização semanal, para 102,4, e o TAI está em 96,8 (valores do arquivo de índices de 11 de outubro de 2026).
O que acompanhar
- A instalação formal do Cimce. O conselho tem até dezembro para ser formalmente instalado [TV Sim Brasil, 1º de outubro de 2026]. Vale observar se a primeira decisão sobre a Lynas vem com condição de separação no país e se fixa capacidade ou prazo.
- A visita técnica do BNDES à Austrália até o fim de 2026. Uma visita seguida de mandato ou termo de compromisso seria o primeiro dinheiro concreto por trás da planta. Sem desdobramento, a separadora continua sendo uma frase do ministro.
- O documento aos acionistas antes da votação de janeiro de 2027. Se o próprio material da Lynas indicar local, capacidade ou investimento para uma separadora no Brasil, a opção virou compromisso. Se continuar apontando para a Malásia, o conselho brasileiro estará negociando contra o comunicado da empresa.


