A China comprou 77 mil toneladas de terras raras no exterior este ano. O Laos acaba de congelar novas minas.

Dados da alfândega chinesa divulgados em 14 de outubro mostram que o país importou cerca de 1,76 tonelada de terras raras para cada tonelada exportada até setembro. Uma semana antes, o Laos suspendeu novas autorizações e marcou 2030 para acabar com a exportação de minério bruto. No Brasil, os contratos da Serra Verde com compradores chineses terminam no fim de 2026.

Tantalum Strategy Desk · 6 MIN
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Seis pequenos montes de óxidos de terras raras em pó sobre uma superfície arenosa, em tons de branco, amarelo-claro, creme, cinza e preto.
Foto: Peggy Greb, US Department of Agriculture · Public domain

Quando se fala em terras raras, a conversa costuma girar em torno do que a China vende. Os números da alfândega chinesa divulgados hoje mostram o outro lado: o país também compra terras raras no exterior, em volume maior do que vende, e um dos fornecedores de minério começou a fechar a porta. Em agosto, esta redação mostrou que a Indonésia proibiu a exportação de terras raras sem definir a partir de que teor o produto se enquadra (Indonesia Wrote the Rare Earth Ban and Forgot the Number). O Laos foi além, e o minério laosiano tem um único cliente.

Foto: óxidos de terras raras em pó fotografados pelo USDA, sem relação com material do Laos ou do Brasil. Não havia foto de licença livre de uma mina de terras raras no Laos.

O que está acontecendo

  • A China compra mais do que vende. De janeiro a setembro de 2026, o país importou 76.982,5 toneladas de terras raras [FX168, com dados da Administração Geral de Alfândegas, 14 de outubro de 2026] e exportou 43.711,2 toneladas [Huitong Finance/fx678, com dados da alfândega, 14 de outubro de 2026]. Pelas contas da redação, entram cerca de 1,76 tonelada para cada tonelada que sai, um saldo importador de aproximadamente 33.271 toneladas. As exportações acumuladas em nove meses caíram 9,6% na comparação anual. Só em setembro, porém, somaram 4.269,8 toneladas, alta de 6,7% sobre setembro de 2025, com a retomada das compras externas depois da calmaria do meio do ano [Reuters via Investing.com, 14 de outubro de 2026].
  • Importações em leve queda. No mesmo período de 2025, a China importou 78.898,4 toneladas e exportou 48.355,7 toneladas [The Paper, com base no Guancha e em dados da alfândega, 13 de outubro de 2025]. Pelas contas da redação, as importações de nove meses recuaram cerca de 2,4%.
  • O Laos congela novos projetos. Em 7 de outubro, o ministro da Indústria e Comércio, Malaythong Kommasith, informou à Assembleia Nacional que o governo pretende eliminar aos poucos a exportação de matérias-primas e exigir que novos projetos de recursos naturais tenham instalações de processamento [KPL, 7 de outubro de 2026]. Uma diretiva do primeiro-ministro, ainda em elaboração, proibiria a exportação de minério não beneficiado de novas minas. As autorizações para novos projetos de terras raras estão congeladas, o governo fixou 2030 como prazo para encerrar toda exportação bruta, inclusive de gipsita, barita, antimônio, cobalto, tungstênio e níquel, e um cronograma para limitar os embarques das minas já em operação deve sair até o fim deste ano [Vientiane Times via Asia News Network, 9 de outubro de 2026].
  • Um único comprador. Em 2023, o Laos exportou US$ 104 milhões em terras raras, menos de um décimo dos US$ 1,44 bilhão de Mianmar, e todo o volume dos dois países foi para a China. Desde 2022, 27 minas de terras raras foram abertas nas bacias hidrográficas laosianas, 23 delas aparentemente em áreas protegidas, com foco em disprósio e térbio [Mongabay, 27 de outubro de 2025].
  • Mianmar pesa mais. Mianmar respondeu por cerca de 57% das importações chinesas de terras raras no ano anterior, segundo Gracelin Baskaran, do CSIS, em entrevista à CNBC em junho de 2025. A maior parte das terras raras pesadas birmanesas sai do estado de Kachin, na fronteira com a China [CNBC via NBC News, 24 de junho de 2025]. David Merriman, da Project Blue, apontou como alternativa os depósitos de argila iônica na Malásia e no Laos, alguns com participação chinesa [mesma fonte].

Por que isso é assunto de IA

Disprósio e térbio deixam os ímãs permanentes mais resistentes ao calor, e ímãs de terras raras estão nos ventiladores e nos discos rígidos dos data centers [coluna de opinião na Kitco, Francois Moreau, 27 de fevereiro de 2025]. Ímãs de neodímio e praseodímio acionam os motores e as bombas da refrigeração líquida que os racks de IA de alta densidade exigem cada vez mais. Uma análise setorial baseada em dados da Sprott e da S&P Global atribui à China cerca de 94% da produção mundial de ímãs permanentes [Skillings Mining Review, citando relatório da Sprott, atualizado em 22 de julho de 2026]. O Laos extrai justamente os elementos pesados que permitem a um ímã aguentar um rack quente. Cada tonelada que Vientiane quer processar em casa deixa de chegar como minério a uma usina chinesa de separação.

O Brasil na história

O Brasil está dos dois lados. A mina Pela Ema, da Serra Verde, em Goiás, fechou contratos de dez anos com empresas chinesas para vender seu concentrado para processamento, porque não havia outra opção enquanto o projeto era desenvolvido. Os contratos foram renegociados e terminam no fim de 2026. A empresa espera produzir cerca de 6.500 toneladas de óxidos de terras raras totais por ano até 2027, disse o CEO Thras Moraitis à Reuters [Reuters via Kitco, 4 de dezembro de 2025]. A USA Rare Earth concluiu em 4 de setembro a compra da Serra Verde por US$ 300 milhões em dinheiro mais 126,849 milhões de novas ações, cerca de US$ 2,8 bilhões no total. O Departamento de Guerra dos Estados Unidos aportou US$ 750 milhões na US SIIE LLC, veículo que vai comprar os carbonatos mistos de terras raras da mina [Poder360, 4 de setembro de 2026]. Um dos fluxos brasileiros que abastecem a separação chinesa deve, portanto, se encerrar no fim de 2026.

Brasília escolheu um instrumento diferente do de Vientiane. A Lei 15.506, sancionada em 16 de setembro, não proíbe nada. Ela cria um crédito de CSLL de até 20% dos gastos com beneficiamento ou transformação, limitado a R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034, autoriza a União a aportar até R$ 2 bilhões num fundo garantidor e dá ao novo conselho, o CIMCE, poder de homologar acordos internacionais de fornecimento que possam afetar a segurança econômica ou geopolítica do país [Mayer Brown, 28 de setembro de 2026]. O Laos aposta na proibição com prazo. O Brasil aposta em incentivo e num conselho.

Estados Unidos

Uma das respostas americanas ao domínio chinês no processamento é ficar com o minério antes que ele chegue à China. A Serra Verde é o exemplo mais claro: uma mina cujo concentrado ia para a China agora pertence a uma empresa americana, e seus carbonatos têm como destino um veículo capitalizado pelo Pentágono [Poder360, 4 de setembro de 2026]. O Laos não oferece essa brecha. Em 2023, todas as suas exportações de terras raras foram para a China [Mongabay, 27 de outubro de 2025], e empresas chinesas detêm cerca de 30% das concessões de terra no país [mesma fonte]. Na leitura desta redação, a exigência de processamento local tende mais a levar capacidade chinesa de separação para o outro lado da fronteira do que a criar um fornecedor para os Estados Unidos.

China

Para Pequim, a decisão do Laos é antes um problema de custo do que de oferta. As importações já estão um pouco abaixo das de um ano atrás, e o Laos era uma das alternativas citadas por analistas para substituir o minério de Kachin [CNBC via NBC News, 24 de junho de 2025]. Se os novos projetos laosianos tiverem de processar no país, as empresas chinesas terão de construir usinas lá, sob regras locais e com energia escassa, ou perder o insumo. O ministro reconheceu obstáculos logísticos sérios, e o Vientiane Times observa que a proibição ameaça provocar uma queda súbita de arrecadação e que custos de transporte, cadeias fragmentadas e limites da rede elétrica podem afastar investimentos em fundições de grande porte [Vientiane Times via Asia News Network, 9 de outubro de 2026]. Enquanto isso, a suspensão do pacote chinês de controles de exportação de 9 de outubro de 2025 vale até 10 de novembro de 2026 [Xinhua, citando o porta-voz do MOFCOM He Yadong, 9 de abril de 2026].

O que isso significa

O gargalo das terras raras costuma ser desenhado como uma caixa só, com a palavra China. Os dados da alfândega mostram que essa caixa tem uma entrada, e ela passa por lugares como Mianmar, Laos e, até o fim de 2026, uma mina em Goiás. O Laos congelou novas autorizações, e os contratos chineses da Serra Verde terminam no fim do ano. Nada disso reduz a produção chinesa de ímãs neste trimestre: as minas laosianas em operação continuam embarcando até que o cronograma diga o contrário, e a diretiva ainda é um rascunho. Mas o sentido é o mesmo em Vientiane, Jacarta e Minaçu. Quem tem o minério quer a margem do processamento, e o acesso a insumo barato de terras raras pesadas para a refrigeração de IA passa a depender de política, não de geologia. O índice Sovereignty 50, desta redação, que acompanha materiais críticos para IA com oferta concentrada num único país, estava em 102,4 em 11 de outubro [índices Tantalum, posição de 11 de outubro de 2026].

O que acompanhar

  1. 10 de novembro de 2026. Termina a suspensão dos controles de exportação chineses de outubro de 2025, se não houver prorrogação [Xinhua, 9 de abril de 2026]. Uma renovação somada a um insumo mais escasso mostraria Pequim priorizando a margem de processamento em vez do volume.
  2. Fim de 2026. Sai o cronograma laosiano para as minas em operação, seguido da revisão da Lei de Minerais no início de 2027 [Vientiane Times via Asia News Network, 9 de outubro de 2026]. O teste é se as minas de terras raras já existentes ganham uma data definida.
  3. Dezembro de 2026. Chegam ao fim os contratos chineses renegociados da Serra Verde [Reuters via Kitco, 4 de dezembro de 2025], e o CIMCE precisa ser instalado em até 90 dias após a publicação da Lei 15.506 [Mayer Brown, 28 de setembro de 2026]. Vale observar se a primeira pauta do conselho trata de acordos de fornecimento do concentrado goiano.

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