A fundição da Korea Zinc no Tennessee adicionaria 54 toneladas de gálio, 6% da produção mundial do ano passado. Chega em 2030.
A revisão ambiental federal terminou e o dinheiro está alinhado. Mas o gálio é um fluxo subproduto de uma fundição de US$ 7,4 bilhões, começa em 2030, e a suspensão chinesa da proibição de exportação aos EUA vence em 52 dias.

A Korea Zinc informou em 21 de setembro que o Departamento de Guerra dos EUA emitiu um Finding of No Significant Impact para o Projeto Crucible, sua fundição integrada de US$ 7,4 bilhões em Clarksville, Tennessee [Seoul Economic Daily, 21 de setembro de 2026]. A apresentação da própria empresa a investidores diz que a planta produzirá 54 toneladas de gálio e 44 toneladas de germânio por ano a partir de 2030 [Korea Zinc, “U.S. Smelter Investment”, janeiro de 2026]. Num mundo que produziu cerca de 900 toneladas estimadas de gálio primário em 2025, 99% delas na China [USGS Mineral Commodity Summaries 2026, gálio], é um número grande. Mas é um plano, não uma planta, e as datas importam.
O que está acontecendo
- A etapa de licenciamento foi vencida. A conclusão do Departamento de Guerra cobre ar, gases de efeito estufa, água, recursos biológicos e culturais, resíduos, materiais perigosos e tráfego. A Korea Zinc diz que o apoio da Tennessee Valley Authority à infraestrutura de energia e as decisões de financiamento federal decorrem dela [Seoul Economic Daily, 21 de setembro de 2026].
- O dinheiro é majoritariamente público. Dos cerca de US$ 7,4 bilhões, a apresentação da empresa mostra um empréstimo de US$ 4,7 bilhões do Departamento de Guerra, uma subvenção de US$ 0,21 bilhão do CHIPS Act e US$ 2,52 bilhões em capital próprio, dos quais US$ 1,94 bilhão vêm de uma joint venture estrangeira com governo e investidores estratégicos dos EUA e US$ 0,58 bilhão da própria Korea Zinc [Korea Zinc, janeiro de 2026]. O Korea Times informa a subvenção como até US$ 210 milhões do Departamento de Comércio [Korea Times, 23 de setembro de 2026].
- O cronograma é longo. A apresentação prevê início das obras no primeiro trimestre de 2027, comissionamento do processo de zinco no quarto trimestre de 2028 e operação de teste em 2029, com todos os processos em plena utilização no primeiro trimestre de 2030 [Korea Zinc, janeiro de 2026]. Os números de gálio e germânio são declarados “a partir de 2030”.
- A matéria-prima é um passivo antigo. O local é a antiga fundição de zinco da Nyrstar, a única fundição de zinco dos EUA, com 130.000 toneladas por ano, e a apresentação diz que uma quantidade substancial de germânio, gálio, zinco e chumbo permanece na “pond cake” não processada ali [Korea Zinc, janeiro de 2026]. O USGS acrescenta que a mina do Tennessee que abastecia essa fundição está suspensa desde novembro de 2023 [USGS Mineral Commodity Summaries 2026, germânio].
- O argumento de demanda da empresa se apoia em defesa. A apresentação diz que a demanda dos EUA por gálio e germânio deve chegar a pelo menos 50 toneladas por ano até 2030 “devido à demanda crescente ligada à defesa”, citando também IA, semicondutores, baterias e renováveis como vetores de crescimento [Korea Zinc, janeiro de 2026]. É a descrição que a empresa faz do próprio mercado.
O mecanismo de IA
O nitreto de gálio é um material de chaveamento de potência. A Navitas disse em 21 de maio de 2025 que seus dispositivos de GaN e carbeto de silício foram selecionados para apoiar a arquitetura de energia 800 V HVDC da Nvidia para data centers, para racks de TI de 1 MW e além, incluindo os sistemas de rack Kyber para GPUs como a Rubin Ultra [comunicado da Navitas, 21 de maio de 2025]. O USGS informa que circuitos integrados responderam por 73% do consumo de gálio nos EUA em 2025, com computadores de alto desempenho entre os usos listados [USGS Mineral Commodity Summaries 2026, gálio]. No germânio, o USGS lista fibra óptica para redes de dados e telecomunicações como o maior uso final nos EUA [USGS, germânio].
O ciclo fecha assim: se a energia dos racks migra para 800 V e o GaN assume parte dos estágios de conversão, cada gigawatt de nova capacidade pressiona um metal cuja oferta primária está em um único país. Não encontramos uma intensidade de gálio por megawatt publicada para racks de IA, então não colocamos tonelagem nessa pressão. O mecanismo é direto. O tamanho não foi medido.
Aritmética da mesa
- 54 toneladas frente à estimativa do USGS de 900 toneladas de gálio primário de baixa pureza no mundo em 2025 dá 6,0%. A China produziu 900 dessas toneladas na tabela do USGS e respondeu por 99% do total mundial [USGS, gálio].
- 54 toneladas são 2,8 vezes o consumo reportado de gálio nos EUA, de 19 toneladas em 2025 [USGS, gálio].
- Ao valor médio de importação do USGS em 2025, de US$ 580 por quilo para gálio e US$ 4.100 por quilo para germânio metálico, 54 toneladas de gálio são cerca de US$ 31 milhões e 44 toneladas de germânio são cerca de US$ 180 milhões. Juntas, cerca de US$ 212 milhões por ano, 2,9% do custo de capital de US$ 7,4 bilhões [USGS, gálio e germânio; Korea Zinc, janeiro de 2026]. A esses preços, os dois metais são pequenos diante do custo de capital. Em tonelagem, a planta é sobretudo de metais básicos: a apresentação lista 535.000 toneladas de três metais não ferrosos contra 5.100 toneladas de metais raros [Korea Zinc, janeiro de 2026].
O ângulo do Brasil
O gálio é sobretudo um subproduto da bauxita, e o Brasil produz bauxita e alumina em escala: 11 milhões de toneladas de bauxita e 33 milhões de toneladas de alumina em 2025, cerca de 7,3% e 7,5% da produção mundial [USGS bauxita e alumina, 2026]. O Brasil também forneceu 71% das importações de alumina dos EUA entre 2021 e 2024 [USGS, idem]. A tabela de gálio do USGS lista produtores primários apenas na China, no Japão e na Rússia, com outra capacidade na Alemanha, Hungria, Cazaquistão, Coreia do Sul e Ucrânia. O Brasil não aparece [USGS, gálio]. Com o teor médio de gálio na bauxita citado pelo USGS, 50 partes por milhão, 11 milhões de toneladas de bauxita conteriam cerca de 550 toneladas de gálio (aritmética da mesa; contido não é recuperável). Se a bauxita brasileira estiver perto dessa média, o metal está no minério. A tabela do USGS não mostra recuperação no Brasil.
O ângulo dos EUA
Os EUA não recuperam gálio primário desde 1987 e dependem 100% de importações [USGS, gálio]. O Crucible é uma de várias tentativas apoiadas por Washington, ao lado de um programa de pesquisa do DOE de até US$ 6 milhões e de um prêmio de US$ 29,9 milhões do Defense Production Act para uma planta de demonstração na Louisiana [USGS, gálio]. Desses, o Crucible é o que tem tonelagem anual declarada.
O ângulo da China
A China proibiu exportações de gálio e germânio para os EUA em dezembro de 2024 e suspendeu essa proibição até 27 de novembro de 2026. Os metais continuam sob regime de licenciamento [Evertiq, 10 de novembro de 2025]. A partir de 6 de outubro, são 52 dias. O Crucible não ajuda nesse precipício: seus metais começam a fluir cerca de três anos depois. A janela é exatamente onde o Ocidente precisa comprar sua travessia.
O que isso significa
O Crucible é uma resposta crível a um problema de 2030 e nenhuma resposta a um problema de 2026. Para compradores de IA, a exposição de curto prazo ao gálio continua sendo a oferta chinesa licenciada. Para o Brasil, a questão em aberto é a recuperação, não a geologia: o teor médio sugere que o metal está lá, e a tabela do USGS não mostra circuito que o capture.
O que observar
- 27 de novembro de 2026: vencimento da suspensão chinesa da proibição aos EUA. Prorrogação, fim ou novas condições.
- Início das obras no primeiro trimestre de 2027: a data da apresentação para começarem a preparação do terreno e as obras civis.
- Se a recuperação de gálio aparece nos termos de compra: um fabricante de chips ou fornecedor de energia de data center nomeado assinando pelas 54 toneladas converteria um plano liderado pela defesa em um plano ligado à IA.


