Lula e Flávio prometem processar terras raras para a era dos data centers. Nenhum dos dois programas diz quanto
Os dois finalistas chegam ao segundo turno de 25 de outubro com planos que ligam minerais críticos a inteligência artificial e data centers. Um aposta no Estado, o outro em capital estrangeiro e em Washington. Quem vencer herda duas leis já sancionadas e uma lacuna de separação que nenhum plano coloca em números.

Ontem o Tantalum mostrou que Brasília já fala de uma usina de separação da Lynas em Poços de Caldas que o orçamento da própria empresa ainda não inclui (Brasília diz que a Lynas vai construir uma das maiores usinas de separação de terras raras fora da China). A mesma lacuna agora atravessa a disputa presidencial. Os dois candidatos do segundo turno, marcado para 25 de outubro, dizem que o Brasil vai parar de exportar minério bruto e passar a processá-lo, e os dois amarram essa promessa à inteligência artificial e aos data centers. Nenhum dos programas diz quanta capacidade de separação, para quando ou com dinheiro de quem.
O que está acontecendo
- Primeiro turno apertado. Com 99,79% das urnas apuradas em 4 de outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL) tinha 47,08% dos votos válidos e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 45,10%. Os dois voltam às urnas em 25 de outubro [Viva/Broadcast, 4 de outubro de 2026]. Pelas contas do Tantalum, a diferença foi de cerca de 2 pontos, ou 2.348.517 votos.
- O programa de Lula. O plano de 84 páginas protocolado no TSE inclui inteligência artificial, digitalização, minerais críticos e terras raras entre as prioridades e propõe “criar cadeias nacionais de processamento e agregar valor antes da exportação” [Gazeta do Povo, 17 de agosto de 2026]. Data centers teriam contrapartidas de conteúdo local e precisariam destinar capacidade computacional ao mercado brasileiro [Congresso em Foco, 14 de agosto de 2026]. O plano “não define metas de produção nem o volume de financiamento” da política de minerais [Forbes Brasil, 6 de outubro de 2026].
- O programa de Flávio. O plano de 76 páginas cita terras raras ao lado de lítio, nióbio, grafite, cobre, níquel e urânio e defende licenciamento mais ágil, capital estrangeiro e agregação de valor no país [Folha BV, 27 de agosto de 2026]. Quer fazer do Brasil um “polo global de data centers sustentáveis, aproveitando a matriz elétrica renovável” [Teletime, 17 de agosto de 2026], com processamento de lítio, nióbio, cobre e terras raras integrado à oferta de energia limpa para data centers e prazos fixos para o licenciamento ambiental [Exame, 12 de outubro de 2026]. No texto do plano, os trechos sobre minerais e data centers não trazem meta de produção, investimento ou capacidade. No licenciamento, o documento promete “prazos definidos”, diz que a licença deve ser concedida se o órgão não decidir a tempo e oferece estabilidade de regras de até 20 anos para projetos longos [Plano de governo de Flávio Bolsonaro, via Voto Secreto, acesso em 13 de outubro de 2026].
- O memorando com números. Uma apresentação de 22 páginas, datada de 19 de março de 2026, escrita por André Marinho e com a capa “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign”, projeta de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões em dez anos em mineração, refino e processamento, além de 500 mil a 1 milhão de empregos. Marinho disse ao Amado Mundo que se tratou de iniciativa pessoal e que a campanha não pediu nem orientou o material. A campanha não respondeu às perguntas sobre o documento [Amado Mundo via Diário do RN, 12 de setembro de 2026].
- Terras raras no palanque. Na noite do primeiro turno, Lula tratou terras raras e minerais críticos como projeto tecnológico para o país: “Vamos convencer o povo brasileiro da importância de continuarmos com um projeto de desenvolvimento de terras raras e minerais críticos” [ND Mais, João Alfredo Nyegray, 12 de outubro de 2026].
Por que isso é assunto de IA
A IEA lembra que data centers usam quantidades relevantes de cobre, alumínio, silício, gálio e terras raras, e estima que o consumo de eletricidade desses centros pode mais que dobrar até 2030, para cerca de 945 terawatts-hora [Gazeta Mercantil, citando a IEA, 11 de setembro de 2026]. O Brasil já disputa essa demanda: 106 MW de capacidade de data centers entraram em operação no primeiro semestre de 2026, outros 134 MW são esperados até dezembro e há 660 MW em construção [JLL, 14 de agosto de 2026]. Os dois candidatos agora tratam minerais e data centers como uma mesma política industrial. Lula resumiu a lógica num comício no Rio, ao prometer data centers funcionando no país “porque gasta muita energia e nós temos energia aqui no Brasil” [Brasil 247, 22 de agosto de 2026].
O ângulo brasileiro
Quem vencer não parte do zero. Lula sancionou a política de minerais críticos em 16 de setembro, com um fundo garantidor que pode receber até R$ 2 bilhões da União e créditos fiscais de até R$ 5 bilhões entre 2030 e 2034 para empresas que beneficiem, transformem ou reciclem minerais no país [Metrópoles, 16 de setembro de 2026]. A Lei 15.506 também criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, o CIMCE [Vermelho, 2 de outubro de 2026]. Um dia antes, o governo sancionou o Redata, que suspende por cinco anos tributos sobre equipamentos de tecnologia da informação para data centers, desde que as empresas destinem ao mercado interno ao menos 10% da capacidade, usem energia limpa ou renovável e invistam em pesquisa no Brasil [Ministério da Fazenda, 16 de setembro de 2026].
Pelas contas do Tantalum, fundo e créditos somam R$ 7 bilhões, cerca de US$ 1,35 bilhão a R$ 5,20 por dólar. O piso do memorando de Marinho, US$ 50 bilhões, é umas 37 vezes esse valor. Nenhum dos dois programas preenche essa distância com um número.
O ângulo americano
Até agora, o dinheiro de Washington nas terras raras brasileiras foi para uma mina. A operação Pela Ema, da Serra Verde, em Goiás, recebeu US$ 565 milhões em financiamento da DFC, a agência americana de financiamento ao desenvolvimento, e a USA Rare Earth acertou em abril a compra da Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões. A Serra Verde tem um contrato de venda de 15 anos com um veículo de fabricação de ímãs NdFeB financiado pelo governo americano e por investidores privados, com preço mínimo garantido para neodímio, praseodímio, disprósio e térbio [Mining Technology, 21 de abril de 2026]. Em 12 de outubro, a ação da USA Rare Earth era negociada a US$ 11,86, queda de 6%, e acumulava baixa de 30% no mês. O apoio do Departamento de Comércio à empresa só é pago conforme ela cumpre etapas [24/7 Wall St., 12 de outubro de 2026]. O plano de Flávio busca capital estrangeiro e deixa a parceria com os Estados Unidos para o memorando de Marinho. Lula também não fecha a porta: “Eu não tenho cerceamento aos Estados Unidos”, disse ao Flow Podcast [Vermelho, 2 de outubro de 2026].
O ângulo chinês
A China processa cerca de 99% da oferta mundial de terras raras pesadas, e o licenciamento que impôs em abril de 2025 a sete terras raras médias e pesadas, entre elas disprósio e térbio, nunca foi suspenso. O pacote mais amplo de outubro de 2025 foi suspenso pela trégua de Busan até 10 de novembro de 2026, e a Tech Times não registrava prorrogação até 2 de outubro [Tech Times, 2 de outubro de 2026]. Outros veículos noticiaram depois uma prorrogação curta até janeiro de 2027. O Tantalum não conseguiu confirmá-la em texto oficial, de modo que 10 de novembro, 16 dias depois do segundo turno, segue como a data registrada. O CSIS estima as reservas brasileiras de terras raras em 21 milhões de toneladas, atrás dos 44 milhões da China, com 13 projetos ativos contra 89 na Austrália [CSIS, 27 de abril de 2026]. A linha de Lula é que “a China pode ser parceira nossa, trazendo tecnologia para nós, como os Estados Unidos também” [Vermelho, 2 de outubro de 2026]. O memorando de Marinho, que segundo o autor não foi encomendado pela campanha, descreve o Brasil como um dos principais fornecedores e centros de processamento de minerais alinhados ao Ocidente [Amado Mundo via Diário do RN, 12 de setembro de 2026]. Em qualquer dos cenários, o conhecimento de separação de que os dois planos precisam está, em sua imensa maioria, na China.
O que isso significa
O segundo turno não opõe processar e exportar minério. No papel, os dois lados já escolheram processar. A escolha é de modelo de financiamento e de parceiro: de um lado, coordenação estatal via fundo garantidor, créditos fiscais e CIMCE, com tecnologia chinesa e americana bem-vindas; de outro, capital privado estrangeiro e licenciamento mais rápido, com uma parceria com os Estados Unidos sugerida num memorando de um aliado. O que nenhum programa faz é se comprometer com a etapa que define se as terras raras brasileiras chegam a um data center como ímã ou como carbonato: uma usina de separação com porte, prazo e financiador definidos. Enquanto isso não acontece, a usina da Lynas tratada na reportagem anterior do Tantalum é o mais próximo que o Brasil tem de um projeto com nome, e ela ainda não está no orçamento da empresa.
O que acompanhar
- Segundo turno, 25 de outubro. Se as primeiras declarações do vencedor trazem uma meta de separação ou um valor de financiamento, em vez de repetir a linguagem do programa.
- 10 de novembro. Se Pequim confirma oficialmente a prorrogação da suspensão dos controles de outubro de 2025. Um vencimento sem renovação cairia 16 dias depois da eleição e encareceria qualquer plano de separação fora da China.
- CIMCE e Redata na prática. O Redata deixa os critérios de sustentabilidade para a regulamentação [Ministério da Fazenda, 16 de setembro de 2026]. Vale acompanhar essas regras e a primeira decisão do CIMCE sobre mudança de controle de uma empresa de minerais críticos, o primeiro teste concreto da promessa de processamento de qualquer um dos dois candidatos.

