O Oregon parou de vender terras para data centers. E admitiu que não pode impedir muito mais.

A governadora Kotek congelou todas as servidões, locações e transferências não aprovadas de imóveis públicos estaduais para projetos de data center até 1º de julho de 2027, e deu às agências até 14 de setembro para reportar sua exposição. O próprio comunicado reconhece que o estado não tem competência para ir além. O Brasil passou a mesma quinzena escrevendo um índice de eficiência hídrica no projeto de data centers que acabou de enviar à sanção.

Tantalum Strategy Desk · 6 min
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BalticServers data center
Foto: BalticServers data center · BalticServers.com · CC BY-SA 3.0

Cerca de cem pessoas se reuniram em frente ao Capitólio do Estado do Oregon, em Salem, na terça-feira, 8 de setembro, pedindo uma suspensão de três anos para novos data centers. A governadora estava entre elas. Tina Kotek disse à multidão que apoia uma moratória até que o desenvolvimento de data centers seja feito nos termos do estado, e então anunciou algo consideravelmente mais estreito: uma ordem determinando que as agências estaduais suspendam imediatamente os pedidos não aprovados de servidões, direitos de passagem, locações, aluguéis, licenças de uso do solo e vendas ou transferências de imóveis públicos estaduais para projetos de data center, vigente até 1º de julho de 2027 ou até que o gabinete da governadora ou o Legislativo determinem o contrário [Oregon Capital Chronicle, 8 de setembro de 2026]. Atenção à sequência, porque a imprensa a embaralhou. A diretriz foi emitida na terça-feira, durante o ato, e repercutida pela imprensa setorial na quarta [DCD, 9 de setembro de 2026].

O que está acontecendo

  • A suspensão alcança apenas terras e prédios do estado. O próprio comunicado de Kotek reconhece que o Oregon “atualmente não tem competência para instituir uma moratória estadual ao desenvolvimento de data centers” [Oregon Capital Chronicle, 8 de setembro de 2026]. É uma governadora usando a única alavanca que controla sem ambiguidade: o papel do estado como proprietário de terras, e não como regulador.
  • As agências têm até 14 de setembro para reportar quaisquer servidões ligadas a data centers ou eventuais vendas ou transferências de imóveis estaduais. Quantos projetos são atingidos não se sabia na terça-feira; o porta-voz Luke Harkins disse que era tudo o que o gabinete podia informar [Oregon Capital Chronicle, 8 de setembro de 2026].
  • A ordem vem depois de um bloqueio, em agosto, da venda de 32 acres no Mill Creek Corporate Center, no sudeste de Salem, a um projeto de data center da Verrus [DCD, 9 de setembro de 2026], e de uma intervenção em março contra um projeto em terreno estadual do Departamento de Correções, também em Salem [Oregon Capital Chronicle, 8 de setembro de 2026]. A mesa não confirmou nesta apuração se os dois casos tratam do mesmo terreno.
  • A consultoria ECONorthwest informou a uma comissão da Câmara estadual, na mesma tarde, que o Oregon tem cerca de 144 data centers, com a ressalva de que a definição é imprecisa. Há quase o dobro de unidades no leste do estado em relação ao oeste, incluindo a maioria das instalações de hiperescala voltadas à inteligência artificial, embora o crescimento deva ser mais rápido no oeste [Oregon Capital Chronicle, 8 de setembro de 2026].
  • O estado ainda não sabe dizer quanto deixa de arrecadar. Questionado se era correta a reportagem de que os data centers receberão pelo menos US$ 450 milhões em isenções de imposto predial neste ano, Chris Allanach, do apartidário Oregon Legislative Revenue Office, disse que o número está “bem próximo” e que os cálculos do seu escritório não sugerem que ele seja irrazoável [Oregon Capital Chronicle, 8 de setembro de 2026].

Por que uma mesa de materiais se importa

Nada disso impede que uma tonelada de cobre ou um transformador seja encomendado. As terras privadas seguem intocadas, e o incorporador bloqueado no Mill Creek reapresentou o projeto em terreno particular antes de uma votação na Câmara Municipal de Salem [Oregon Capital Chronicle, 8 de setembro de 2026]. O que a ordem faz é mexer na fila. A escolha do terreno precede os estudos de energia, os pedidos de transformadores e a compra de cabos, e um congelamento de pouco menos de um ano sobre imóveis públicos reprecifica cada jurisdição que ainda estiver disposta a vender.

Os índices da mesa mostram sobre o que isso se apoia. No recálculo de 5 de setembro, a perna de energia TAI-P marca 111,3 contra 106,2 da perna de materiais TAI-M, com o composto TAI em 107,5 e o SOV50 em 119,3, sobre um escore de concentração da cesta de 0,66. A energia correu cerca de cinco pontos à frente dos materiais neste ano. A terra é o insumo que nenhuma das duas pernas precifica, e o Oregon acaba de mostrar que ela pode ser retirada em uma tarde.

Ângulo Brasil

O Brasil faz o experimento oposto no mesmo relógio. O Senado aprovou o PL 278/2026 em 1º de setembro, sem mudanças de mérito, e o enviou à sanção presidencial, criando o Redata, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter. O texto suspende o Imposto de Importação, o PIS/Cofins, o PIS/Cofins-Importação e o IPI por cinco anos na compra de equipamentos, a um custo estimado de cerca de R$ 5,2 bilhões em 2026, caindo para R$ 1 bilhão em cada um dos dois anos seguintes [Agência Senado, 1º de setembro de 2026]. A mesa não confirmou nesta apuração a assinatura presidencial.

As contrapartidas são justamente a parte que o Oregon ainda está discutindo. As beneficiárias precisam honrar toda a demanda contratual de energia elétrica, com contratos de suprimento ou autoprodução a partir de fontes limpas, renováveis ou de baixa emissão; apresentar Índice de Eficiência Hídrica para resfriamento igual ou inferior a 0,05 litro de água por kWh, medido anualmente; direcionar ao mercado interno pelo menos 10% do fornecimento efetivo de processamento instalado; e investir no país o equivalente a 2% do valor dos produtos adquiridos com o benefício. Esses percentuais caem para 8% e 1,6% no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e pelo menos 40% dos investimentos em fomento à economia digital devem ir para essas regiões [Agência Senado, 1º de setembro de 2026]. A justificativa do Ministério da Fazenda é que cerca de 60% dos dados e da inteligência artificial usados no país são processados no exterior, e o relator, senador Cid Gomes, formulou a alternativa como o Brasil virar uma colônia digital de plataformas estrangeiras [Agência Senado, 1º de setembro de 2026].

O Oregon está pausando para descobrir quanta água e quanta energia um data center custa. O Brasil colocou o número da água no texto do projeto. Só um dos dois diz hoje ao incorporador quais são as regras.

Ângulo Estados Unidos

A mesa lê o Oregon como um estado pioneiro na descoberta de que o consentimento agora restringe tanto quanto os chips e a conexão à rede. O Oregon vem montando essa engrenagem há algum tempo. Kotek sancionou em 2025 o Protecting Oregonians With Energy Responsibility Act, que resultou em um aumento de 29% na tarifa de energia elétrica cobrada das empresas de data center e em reduções tarifárias para todos os demais consumidores atendidos pela Portland General Electric [KTVZ, 8 de setembro de 2026]. Hillsboro instituiu uma moratória de 120 dias no fim de julho [DCD, 9 de setembro de 2026]. Parlamentares democratas propuseram o Responsible Data Center Development Act, com uma pausa de três anos, apoiado no ato de terça-feira pelas organizações Food and Water Watch, Oregon Rural Action e Columbia Riverkeeper [Oregon Capital Chronicle, 8 de setembro de 2026].

O sinal revelador é o atraso no cronograma. O Comitê Consultivo de Data Centers de Kotek deveria entregar uma análise preliminar de custos e benefícios até meados de setembro e um relatório final em outubro. Em vez disso, divulgará um “documento preliminar de aprendizados e perguntas” e enviará recomendações até o fim do ano [Oregon Capital Chronicle, 8 de setembro de 2026]. O congelamento vai até julho de 2027 em parte porque a análise que deveria justificá-lo está atrasada.

Ângulo China

Do outro lado, essa conversa não existe. A JD Cloud e a Moore Threads usaram a Global Technology Explorers Conference 2026 da JD para anunciar um cluster de 100 mil GPUs construído sobre silício doméstico, que a JD Cloud descreve como o primeiro do tipo hospedado por um grande provedor chinês de nuvem de IA. As duas já haviam feito parceria em um cluster de 10 mil GPUs, um salto de dez vezes sobre os dois números divulgados, o que é aritmética da mesa. A Moore Threads abriu capital em Xangai em dezembro de 2025 e está na Entity List do US Bureau of Industry and Security [DCD, 9 de setembro de 2026, citando o Securities Times].

Ângulo África

A Costa do Marfim vai além de vender terras. Seu primeiro data center estatal, desenvolvido pela Cybastion, sediada em Washington, a um custo estimado de US$ 66 milhões com apoio financeiro do US Export-Import Bank, tem meta para 2027 e oferecerá 1,73 MW de capacidade de TI dentro de 3 MW de potência total, 228 racks e 10 petabytes de armazenamento [DCD, 9 de setembro de 2026, citando a Bloomberg, 8 de setembro de 2026]. Convém separar as datas, porque há um ano entre elas. O pacote maior de financiamento do EXIM para a Costa do Marfim foi anunciado em setembro de 2025; o que veio a público nesta semana é a obra que ele custeia [DCD, 9 de setembro de 2026]. E os megawatts também não são o ponto. Washington passou o último ano financiando um Estado soberano para que ele se torne o proprietário das terras, e nesta semana uma governadora americana deixou de sê-lo.

O que isso significa

A expansão da infraestrutura de IA passou 2026 aprendendo que energia é uma restrição física. O Oregon é o lembrete de que a titularidade da terra é uma restrição política, e que ela pode ser revogada mais rápido do que qualquer pedido de turbina pode ser cancelado. Um hiperescalador consegue fazer hedge de cobre, contratar enriquecimento e entrar na fila de conexão. Não consegue fazer hedge de uma servidão.

Os limites da ordem importam tanto quanto seu alcance. Só imóveis públicos, com validade inferior a um ano, e ela existe porque o estado não tem competência para fazer o que o ato pedia. Isso a torna um sinal de intenção, e não uma restrição de oferta. Mas o último sinal de intenção do Oregon, o POWER Act, terminou como um aumento de 29% na tarifa de energia dos data centers [KTVZ, 8 de setembro de 2026], e o estado agora colocou também o próprio patrimônio na mesa de negociação.

O que observar

  1. 14 de setembro, os relatórios de situação das agências. O primeiro número concreto sobre quanto do pipeline do Oregon toca terras estaduais. Se for pequeno, a ordem é simbólica. Se for grande, é um evento de oferta.
  2. A sanção presidencial do PL 278/2026 e a regulamentação que definirá os critérios de sustentabilidade do Redata. O índice de 0,05 litro por kWh está no texto aprovado; os demais critérios ficaram para regulamento [Agência Senado, 1º de setembro de 2026]. Se essa regulamentação tiver dentes, define se a oferta brasileira é um acordo de fato diferente ou apenas um benefício fiscal com papelada.
  3. As recomendações do Comitê Consultivo de Data Centers, agora previstas para o fim do ano. São a base declarada para o que o Legislativo fizer antes de julho de 2027.