A peça mais consequente de política de infraestrutura de IA na América Latina não é um subsídio nem um pacto mineral. É uma edição de definição. O Brasil mudou o que a palavra exportação significa, e um terreno de 34 hectares no litoral cearense é o resultado.
O que está acontecendo
- Fábio Feijó, presidente da ZPE Ceará, afirma que a legislação federal de zonas de processamento de exportação precisou ser alterada por Medida Provisória no fim de 2025 antes que o data center do Pecém pudesse avançar. O raciocínio dele vale ser citado porque é a história inteira: “porque data center não exporta nada, ele é o prédio que aluga seu espaço para alguém, então isso não é exportação, é prestação de serviço interno. Quem exporta é o cliente do data center”. Ele credita o governador Elmano, o ministro Camilo e o presidente Lula pela correção [Trends CE via ABRAZPE, 23 de março de 2026].
- O empreendimento fica dentro da ZPE do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, em 34 hectares próximos à rodovia CE-348, entre Caucaia e São Gonçalo do Amarante. Foi construído exclusivamente para a exportação de serviços, processando dados de usuários residentes fora do Brasil [Poder360, 19 de maio de 2026].
- A primeira fase tem 200 MW de capacidade de TI contra cerca de 300 MW de demanda energética, o que o Poder360 descreve como suficiente para abastecer 2,2 milhões de pessoas. As obras começaram em 6 de janeiro de 2026, a operação está prevista para o terceiro trimestre de 2027 e a expansão vai até 2029 [Poder360, 19 de maio de 2026].
- A Omnia, empresa de data centers controlada pela Pátria Investimentos, assinou um acordo de energia de 20 anos e US$ 2 bilhões com a Casa dos Ventos. Está estruturado como autoprodução, ou seja, a Omnia assume participação societária nos parques de geração e com isso ganha isenção de encargos e melhor tratamento tarifário. A maior parte do suprimento vem do Complexo Eólico Ibiapaba, de 630 MW no Ceará, ainda em construção, com parcela menor do Dom Inocêncio, no Piauí. O Poder360 informa que o contrato vai sustentar um plano de expansão eólica e solar no qual a Casa dos Ventos estima acrescentar 2,1 GW à sua capacidade instalada [Poder360, 19 de maio de 2026].
- O Conselho Nacional das ZPEs impôs uma condição que merece mais atenção do que recebeu: a energia precisa ser 100 por cento limpa e de produção nova. O propósito declarado é garantir que o campus não dispute eletricidade que já atende a população local nem pressione as tarifas [Poder360, 19 de maio de 2026].
O ângulo Brasil
O Brasil passou dois anos ouvindo que é um fornecedor de minerais à espera de um comprador. O Pecém é o outro lado do balanço. A cifra de investimento anunciada é de R$ 200 bilhões em dez anos, contra um PIB do Estado do Ceará de R$ 232,2 bilhões em 2023 [Diário do Nordeste citando o IBGE, 10 de julho de 2026]. Isso equivale a cerca de 86 por cento do produto anual do Estado, o que é aritmética da mesa sobre esses dois números publicados e deve ser lido como marcador de escala, não como projeção.
A estrutura de autoprodução e a condição de geração nova, juntas, formam um instrumento mais sofisticado do que boa parte do que Washington e Bruxelas produziram. O inquilino não pode consumir oferta brasileira já existente. Precisa financiar energia eólica nova, e paga por isso assumindo risco societário nos parques. Se o Ceará captura valor suficiente é outra questão. O Conselho Nacional das ZPEs estima 550 empregos diretos e indiretos na operação e 3.800 durante as obras [Poder360, 19 de maio de 2026]. Para um ativo desse porte, é uma pegada operacional enxuta, o que é a troca padrão da hiperescala.
O laço com materiais é direto. Cerca de 300 MW de carga contínua, respaldados por uma expansão de geração de 2,1 GW, são um pedido de cobre, ímãs e transformadores. Vale ser preciso: 300 MW de demanda contra um complexo eólico de 630 MW de potência nominal não é equivalência de um para um, porque a eólica opera com fator de capacidade bem abaixo da unidade. Essa lacuna é parte do motivo pelo qual o contrato alcança o Piauí.
O ângulo Estados Unidos
Em 24 de agosto, o Metal Tech News publicou seu relato sobre o FORGE, o Forum on Resource Geostrategic Engagement, revelado no Critical Minerals Ministerial de 2026, um encontro de fevereiro com representantes de 54 nações e da União Europeia em Washington. O arcabouço se apoia em cinco objetivos, incluindo uma zona de comércio preferencial e, nas palavras do representante comercial americano Jamieson Greer, explorar “como medidas comerciais, tais como pisos de preço ajustados na fronteira, podem fortalecer nossas indústrias domésticas de minerais críticos”. O artigo nomeia cerca de duas dezenas de países parceiros, da Argentina e do Peru à Guiné e ao Uzbequistão. O Brasil não aparece em nenhuma das listas do FORGE que ele apresenta [Metal Tech News, 24 de agosto de 2026].
Atenção às datas. O encontro ministerial foi em fevereiro. A publicação é da semana passada. A diferença importa porque significa que a lista teve seis meses para incluir o Brasil e não incluiu.
O ângulo China
O inquilino é a ByteDance. A Bloomberg noticiou em 1º de julho que o campus do Pecém seria a maior instalação de data center da empresa fora da China, com 200 MW subindo para quase 1 GW, distribuídos em 20 salas [Bloomberg via w.media, 2 de julho de 2026]. Operadoras chinesas estão levando computação para fora do país a fim de contornar gargalos energéticos domésticos e restrições americanas à exportação de hardware de IA, e o Brasil oferece energia eólica nova e barata, uma isenção de tributos federais sobre investimento em bens de TI anunciada por Lula em setembro de 2025, e 89 por cento de eletricidade de baixo carbono em 2025 [w.media, 2 de julho de 2026].
O Cade aprovou a compra, pela Omnia, da fatia da Casa dos Ventos, levando-a a 100 por cento da sociedade do projeto, em despachos datados de 8 de dezembro de 2025 [Convergência Digital, 10 de dezembro de 2025]. Esse é um fato de 2025, não recente, e não deve ser lido como notícia nova.
África e América Latina
O Pecém foi escolhido pelas amarrações de cabos. Feijó contabiliza 18 cabos submarinos numa faixa de 5 km da Praia do Futuro, em Fortaleza, 16 deles em funcionamento, e classifica essa concentração atrás de Tóquio e Cingapura [Trends CE via ABRAZPE, 23 de março de 2026]. A lógica declarada da Omnia é a proximidade dessas amarrações, que oferecem algumas das rotas mais curtas do Brasil em direção à Europa e à África [Poder360, 19 de maio de 2026]. Um campus que legalmente não pode atender usuários brasileiros precisa exatamente disso.
O que isso significa
A mesa passou o ano acompanhando se o Sul Global consegue subir na cadeia de valor da IA, da extração para o refino. O Pecém é uma terceira opção que ninguém estava modelando: vender os elétrons como serviço. O Ceará não está exportando vento, está exportando o produto do vento, embrulhado em silício, através de um regime aduaneiro que precisou ser reescrito porque foi feito para embarques físicos. O Tantalum AI Materials Index estava em 108,8 em 22 de agosto, alta de 8,8 por cento no ano, com o subíndice de materiais em 109. Nenhum dos dois captura isso, porque a coisa exportada não é um material.
A parte desconfortável é que a mudança de regra foi feita para um inquilino específico, e esse inquilino é chinês. O Brasil construiu um bom mecanismo, e a primeira empresa a entrar pela porta foi justamente aquela que Washington passa a maior parte de sua diplomacia mineral tentando contornar.
O que observar
- A confirmação da Tecto. O Diário do Nordeste noticiou em 10 de julho, citando fonte anônima, que a Tecto Data Centers planeja um segundo campus de hiperescala no Pecém, de R$ 350 bilhões, com obras entre o fim de 2026 e o início de 2027. A Tecto não confirmou e a ZPE Ceará não quis comentar, alegando confidencialidade. Trate o número como não verificado até a empresa dizer.
- Os outros cinco. A mesma reportagem afirma que outros cinco data centers de hiperescala estão previstos para a ZPE, três com pré-contrato assinado. Observe o primeiro desses pré-contratos virar autorização assinada de ZPE, que é o ponto em que o Pecém deixa de ser um negócio e vira um polo.
- A disputa por água e licenciamento. Associações socioambientais questionaram o projeto pelo uso de recursos hídricos e pelos impactos sobre comunidades indígenas no entorno do porto, com o terreno a cerca de 2 km da Lagoa do Cauípe. A Omnia afirma que o sistema de resfriamento em circuito fechado consumirá no máximo 30 mil litros por dia, dos quais cerca de 10 por cento vão para o resfriamento, e que detém as licenças prévia, de instalação e de operação da Semace [Poder360, 19 de maio de 2026]. Observe se as licenças da Semace resistem a contestação, porque o modelo de ZPE só escala se o precedente ambiental se sustentar.