A Urenco USA deu a primeira pá em Eunice, no Novo México, em 18 de agosto, com o Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, e o CEO da Urenco Global, Boris Schucht, ao lado. A planta que começou a ser erguida são 2,1 milhões de unidades de trabalho separativo (SWU) de nova capacidade de urânio de baixo enriquecimento na única instalação comercial de enriquecimento dos Estados Unidos. As primeiras cascatas produzem em 2032. As últimas entram até 2036.

Esse cronograma é a notícia. Não o gargalo, que esta mesa cobriu em 7 de junho. A solução agora foi precificada, contratada e fisicamente iniciada, e o calendário dela mostra que a escassez está travada por mais seis anos.

O que está acontecendo

Se aceitarmos a afirmação da Urenco de que 4,3 milhões de SWU equivalem a um terço da demanda dos EUA, a aritmética é implacável. A necessidade anual americana fica perto de 13 milhões de SWU, ou seja, cerca de 8,6 milhões de SWU por ano são atendidos fora do país (cálculo da mesa a partir do próprio número da Urenco). Os 2,1 milhões de SWU agora em construção fecham cerca de um quarto dessa lacuna, e não antes de meados da próxima década. Entre hoje e 2032, a única nova capacidade comercial de LEU que entra em operação no país é aquela parcela de 700 mil SWU.

Ângulo Brasil

O Brasil tem o problema inverso. Domina tecnologia de enriquecimento e não consegue ocupá-la.

Celso Cunha, presidente da Abdan, disse à CNN Brasil que a INB só alcança plena viabilidade econômica se o país chegar a pelo menos quatro usinas nucleares em operação ou consolidar a exportação de urânio. Cerca de 95 por cento da receita da INB vem do fornecimento de combustível à Eletronuclear para Angra 1 e Angra 2, que juntas consomem aproximadamente 470 toneladas de concentrado de urânio a cada 16 meses. A produção brasileira de yellowcake gira em torno de 100 toneladas por ano, contra as 800 a 1.200 toneladas que Cunha aponta como ponto de equilíbrio [CNN Brasil, 6 de julho de 2026].

Duas coisas mudariam isso. Santa Quitéria, no Ceará, projeto do consórcio formado pela INB e pela Galvani em que o urânio está associado ao fosfato, tem capacidade projetada de 800 toneladas de urânio por ano mais 120 mil toneladas de fosfato para fertilizantes, e aguarda licenciamento ambiental e autorização dos órgãos reguladores. Angra 3, com aproximadamente dois terços das obras civis concluídas, está parada no CNPE [CNN Brasil, 6 de julho de 2026].

A comparação com Eunice é exata e não é sobre centrífugas. A Urenco expandiu porque as concessionárias assinaram offtake de longo prazo primeiro. A INB não consegue expandir porque tem um cliente respondendo por 95 por cento da receita e uma segunda planta travada numa sala de conselho. Certeza de demanda é o insumo que constrói capacidade de enriquecimento, e o Brasil é o país que tem tudo menos isso.

Vale registrar, para esta mesa em particular: o programa Pró-Urânio da INB mapeou áreas de urânio em Rio Preto, em Goiás, onde o urânio aparece com cobre, ouro, terras raras, estanho e tântalo, e em Amorinópolis, onde aparece com ouro, terras raras e diamantes [CNN Brasil, 6 de julho de 2026]. Urânio brasileiro raramente é só urânio.

Ângulo EUA

Washington agora tem dois modelos de enriquecimento rodando lado a lado. Piketon é o público, apoiado numa ordem de tarefa do Departamento de Energia para a Centrus voltada ao HALEU comercial. Eunice é o privado, apoiado em contratos com concessionárias e, nas palavras de Schucht, sem nenhum financiamento público. O modelo privado foi o que começou as obras neste mês, em escala de bilhões de dólares. É um sinal útil para quem lê a construção da infraestrutura de energia para IA: a cadeia do combustível se move quando um comprador com crédito assina um contrato de uma década, não quando um subsídio é anunciado.

As hyperscalers vêm contratando a produção da frota de reatores já existente. Essa frota roda com LEU, e LEU é o que Eunice produz.

Ângulo China

Contexto de escala, com data explícita. A avaliação de Hui Zhang para o Belfer Center estimou a capacidade civil de enriquecimento da China em cerca de 4,5 milhões de SWU por ano, com aproximadamente 2 milhões adicionais em construção, contra um número da World Nuclear Association de 2,2 milhões de SWU para 2014 [Belfer Center, 20 de agosto de 2015]. Essa estimativa tem onze anos e deve ser tratada como piso, não como leitura atual.

Mesmo assim, coloque os dois números lado a lado. A estimativa instalada de Zhang em 2015 mais o que ele contou em construção chega a cerca de 6,5 milhões de SWU. A Urenco Global afirma que vai acrescentar 4,6 milhões de novos SWU nos Estados Unidos, na Holanda e na Alemanha ao longo da próxima década, somados [Urenco, 2 de junho de 2026]. O Ocidente está expandindo. Está expandindo em direção a uma posição que a China plausivelmente já ocupava antes de a construção da infraestrutura de IA começar.

O que isso significa

O enriquecimento é o elo mais lento da cadeia de energia para IA, e agora é lento por cronograma publicado, não por suposição. Todo compromisso nuclear de hyperscaler datado entre 2030 e 2035 depende de um fornecimento de combustível cujo próximo incremento ocidental chega em 2032, na melhor das hipóteses. O TAI-P fechou o último recálculo em 108,3, alta de 8,3 por cento no ano, e o SOV50 em 125,7 contra um escore de concentração da cesta de 0,66 [índices Tantalum Strategy, 22 de agosto de 2026]. Nenhum dos dois precifica ainda um piso rígido de seis anos sob a SWU ocidental.

O que observar