A Investo, gestora brasileira de ETFs controlada pela VanEck, lançou o RARA11 na B3 em 26 de junho de 2026. O fundo replica o REMX, ETF de terras raras e metais estratégicos da VanEck que negocia em Nova York e tem US$ 3 bilhões sob gestão. As negociações no mercado secundário começaram na segunda-feira, 29 de junho. Para o investidor brasileiro, é o primeiro veículo doméstico com exposição pura aos minerais que estão no centro da disputa de cadeia de suprimentos entre Estados Unidos e China.

O timing não é acidental. O REMX acumula alta de mais de 100% em dólar no último ano (a junho de 2026, segundo a VanEck). O Pentágono acumulou mais de US$ 1 bilhão em estoques de minerais críticos e é hoje o maior acionista da MP Materials, única produtora integrada dos Estados Unidos. As terras raras deixaram de ser um tema de nicho para geólogos e viraram um trade geopolítico de massa. A Investo, que já oferece o CHIP11 (semicondutores) e o NUCL11 (urânio e tecnologia nuclear), preenche a última lacuna em sua grade temática.

O que está na cesta

O RARA11 reúne mais de 30 empresas globais, filtradas por um rigoroso critério de 50% de receita atribuída a terras raras e metais estratégicos. A divisão geográfica conta onde a cadeia de suprimentos investível realmente vive hoje:

GeografiaPeso
China27,1%
Austrália25,9%
Estados Unidos20,1%
Canadá11,4%
Chile5,3%

A China leva a maior fatia porque é lá que está concentrada a capacidade de separação e refino. Austrália e Estados Unidos vêm em seguida como as principais bases alternativas de oferta. Canadá e Chile completam a cesta com nomes de exploração e produção em estágios iniciais.

Empresas brasileiras ainda não aparecem no índice REMX, mas isso reflete onde a cadeia global de suprimentos está hoje, não para onde ela vai. O país detém o complexo de Araxá, a mina de Pitinga (estanho-tântalo-nióbio com subprodutos de terras raras) e a Serra Verde, que se tornou a primeira produtora comercial de terras raras do Brasil em 2024. O gap é estrutural: nenhuma empresa brasileira deriva hoje 50% de sua receita de terras raras em escala que qualifique para a metodologia do REMX. A Vale é uma empresa de minério de ferro. A CBMM é privada e focada em nióbio. A Serra Verde ainda está em rampagem.

Enfoque Brasil: o próximo capítulo

Essa é a tensão central da política de minerais críticos brasileira. O país tem as rochas. Ainda não tem o processamento downstream nem os veículos de capitalização pura que permitiriam ao capital global fluir para elas através de produtos indexados padronizados.

A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), projeto de lei PL 2780/2024, foi desenhada para fechar exatamente essa lacuna. De autoria do dep. Zé Silva (União-MG) com o dep. Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) como relator, ela prioriza licenciamentos para projetos de minerais estratégicos, cria um conselho nacional de minerais críticos vinculado à Presidência (CIMCE) e apoia o setor com um fundo garantidor de R$ 2 bilhões e até R$ 5 bilhões em incentivos fiscais ao longo de cinco anos. A Câmara dos Deputados aprovou o projeto em 6 de maio de 2026. Ele agora está no Senado Federal e ainda não é lei.

Intenção regulatória e receita real são coisas diferentes. Mesmo num cenário acelerado, um produtor brasileiro de terras raras dificilmente qualificará para a cesta do REMX antes de 2028. Quando isso acontecer, o RARA11 já terá formado uma base de investidores domésticos familiarizada com o tema.

Cauê Mançanares, CEO da Investo, reconhece a dimensão geopolítica de forma explícita. “Você não precisa adivinhar qual país vai tomar a dianteira. Se forem os Estados Unidos, se for a China, se for a Austrália, você está exposto nessa cadeia.” A lógica de diversificação é sólida para o investidor. Também significa que, quando produtores brasileiros de capitalização pura se qualificarem, haverá uma reserva de capital doméstico já familiarizada com o tema.

Enfoque Estados Unidos: MP Materials e o piso do Pentágono

O peso de 20,1% dos EUA na cesta é, na prática, uma aposta na MP Materials e sua fábrica de ímãs em Fort Worth, além de um punhado de nomes menores como Energy Fuels e USA Rare Earth. A posição do Pentágono como maior acionista cria um piso de fato sob a ação que é incomum para um papel de materiais. Também significa que os investidores do RARA11 terão exposição indireta a decisões de aquisição da defesa americana.

O contexto mais amplo é a tentativa dos Estados Unidos de reconstruir uma cadeia doméstica de terras raras da mina ao ímã. O esforço é real, mas o cronograma é longo. A MP Materials envia concentrado para a China para separação até hoje. Sua instalação no Texas deve entrar em operação em fases até 2027. Até lá, o peso americano no REMX é mais promessa do que produção.

Enfoque China: domínio embutido no índice

O peso de 27,1% da China não é uma aposta ativa na política chinesa. É um reflexo passivo do fato de que empresas chinesas controlam aproximadamente 90% da capacidade global de separação de terras raras. Northern Rare Earth, China Northern Rare Earth High-Tech e Shenghe Resources são o tipo de nome que aparece na cesta. São empresas com ligações estatais, sujeitas a controles de exportação e cada vez mais restritas por quotas da MIIT.

O risco é assimétrico. Se a China apertar os controles de exportação, a cesta se beneficia do preço de escassez. Se a China inundar o mercado para esmagar competidores, a cesta sofre. Os investidores do RARA11 não estão fazendo uma aposta direcional na política chinesa. Estão fazendo uma aposta estrutural no domínio chinês. Isso é uma proposição diferente, e mais arriscada.

O que significa

Para a Tantalum Strategy, o lançamento do RARA11 é um sinal de validação. O sub-índice TAI-M inclui o REMX como componente proxy para exposição a terras raras. Mais capital da B3 perseguindo o REMX via RARA11 significa potencial elevação por fluxo no TAI-M que é independente dos fundamentos de commodities subjacentes. É um sinal de demanda pelo veículo, não necessariamente pelos minerais.

Para os formuladores de política brasileiros, a mensagem é clara. A PNMCE é uma condição necessária, mas insuficiente. Sem produtores de capitalização pura listados, sem plantas de separação, sem a infraestrutura downstream que transforma minério em receita, o Brasil permanecerá uma história de geologia num mundo que negocia tickers. O capital existe. O mercado de ETFs da B3 dobrou seu patrimônio para R$ 121 bilhões em 12 meses. Os investidores estão prontos. O produto não.

O que observar


Fontes: NeoFeed, Investo, B3, fato relevante do VanEck REMX, Senado Federal (PL 2780/2024), Câmara dos Deputados, estimativas da Tantalum Strategy Desk.