A Carnegie Endowment publicou em 2 de junho uma auditoria que fez a conta que os releases não fizeram. John Pendleton e Mackenzie Schuessler somaram cada acordo de compra de energia (PPA) e cada parceria direta de hyperscaler em nuclear e chegaram a cerca de 13 gigawatts de capacidade nominal, divididos entre religamentos de usinas tradicionais e reatores modulares pequenos (SMRs) ainda não construídos (Carnegie, 2 de junho de 2026). Se cada projeto entregar no prazo, as quatro hyperscalers e seus aliados puxarão da rede algo como 102 terawatts-hora por ano até meados da próxima década. A demanda intermediária projetada de data centers nos EUA para o mesmo ano fecha em 560 terawatts-hora. Os acordos cobrem menos de 20 por cento do que a expansão exige.

A diferença é a notícia. A próxima notícia é a cadeia de combustível por trás dela.

A auditoria, em números

Pendleton e Schuessler percorrem cada acordo com fontes citadas. O contrato de vinte anos da Microsoft com a Constellation para religar a Unidade 1 de Three Mile Island (agora Crane Clean Energy Center) é o maior religamento isolado, em 835 megawatts, financiado por US$ 1,6 bilhão em capex da Constellation e um empréstimo de US$ 1 bilhão do Departamento de Energia dos EUA, com volta de operação prevista para 2027. Os dois PPAs da Meta com Constellation e Vistra cobrem 1.121 megawatts em Clinton, Illinois, e 2,6 gigawatts entre Ohio e Pensilvânia, incluindo 433 megawatts em uprates planejados. A reestruturação para o modelo front-of-the-meter do contrato da Amazon com a Talen na Susquehanna coloca 1,9 gigawatt em contrato até 2042. Alphabet escolheu o caminho menor e mais cedo, com uma demonstração de 50 megawatts do Kairos Hermes-2 junto à TVA e um acordo separado de três sítios e 1,8 gigawatt com a desenvolvedora Elementl. Some as parcerias anunciadas em reatores modulares pequenos (Meta com TerraPower e Oklo, Amazon com X-energy) e o total chega a cerca de 13 gigawatts.

É dinheiro real, e também é risco de prazo real. As Unidades 3 e 4 de Vogtle, na Geórgia, último projeto nuclear concluído nos EUA, ficaram prontas em 2024 com sete anos de atraso e mais de US$ 30 bilhões acima do orçamento. Nenhum dos projetos de reator modular pequeno que os hyperscalers compraram tem unidade comercial operando. O gráfico de adições de rede planejadas para 2026 que a Carnegie publica deixa o substituto óbvio: 43,4 gigawatts de nova solar de larga escala (cerca de 60 por cento a mais que em 2025), 24 gigawatts em armazenamento por baterias e 6,3 gigawatts de gás natural só neste ano. A RMI contabilizou 94 gigawatts de adições de gás em planos integrados de longo prazo das concessionárias até 2035. Só no Texas estão programados 10 gigawatts de novo gás, sustentados por mais de US$ 5 bilhões em linhas de crédito estaduais.

O que a auditoria não precifica: a SWU

Religar reator e assinar PPA é o primeiro passo. O segundo é carregar combustível, e a cadeia de combustível tem a sua própria auditoria a fazer.

A capacidade comercial mundial de enriquecimento está com quatro produtores: Urenco (EUA, Reino Unido, Alemanha, Holanda), Orano (França), TENEX da Rosatom (Rússia) e a Centrus, única enriquecedora comercial americana (World Nuclear Association). O Uranium Marketing Annual Report da EIA registra o preço médio pago por concessionárias americanas pela unidade de trabalho separativo (SWU, na sigla em inglês) em US$ 97,66 em 2024 e US$ 106,97 em 2023 (EIA Uranium Marketing). Os dois números ficam bem acima do piso de longo prazo que prevalecia antes de as concessionárias começarem a desfazer contratos russos depois de fevereiro de 2022.

O gargalo aparece com mais força no urânio levemente enriquecido de alta concentração, HALEU, o combustível enriquecido entre 5 e 20 por cento que o Natrium da TerraPower, o Aurora da Oklo (enriquecido a cerca de 19 por cento) e o Xe-100 da X-energy exigem. A Centrus produziu 900 quilos de HALEU em Piketon, Ohio, em 2024, para o Departamento de Energia. O DOE então atuou sobre o gargalo em duas etapas. Em janeiro de 2026, concedeu à American Centrifuge Operating, subsidiária da Centrus, uma ordem de tarefa de US$ 900 milhões para expandir Piketon e produzir HALEU em escala comercial, com opções adicionais de até US$ 170 milhões para entregas ao próprio DOE (release da Centrus Energy, 5 de janeiro de 2026). Mais tarde no mesmo mês, somou US$ 2,7 bilhões à base de oferta doméstica de LEU e HALEU, montante que a Carnegie aponta como a ação federal mais concreta atrás das ordens executivas de maio de 2025 sobre nuclear. A Centrus selecionou a Geiger Brothers como construtora e a Fluor como EPC em abril de 2026.

O Brasil tem uma planta de Fase 2 e uma Marinha que sabe operar centrífuga

A peça da cadeia que quase ninguém fora do setor acompanha está no estado do Rio de Janeiro. As Indústrias Nucleares do Brasil concluíram a Fase 1 da Fábrica de Combustível Nuclear de Resende em fins de 2022, com dez cascatas de ultracentrífugas. Essa capacidade cobre cerca de 70 por cento da demanda de combustível de Angra 1. A Fase 2, contratada à Amazônia Azul Tecnologias de Defesa (Amazul) para engenharia, prevê adicionar mais trinta cascatas ao longo de uma década e chegar a 100 por cento das três usinas de Angra mais cerca de 850 toneladas de urânio enriquecido por ano até 2037 (World Nuclear News sobre o contrato INB-Amazul; Rio Times sobre o enriquecimento brasileiro).

A tecnologia das cascatas é propriedade intelectual da Marinha do Brasil, desenvolvida em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares. O IBRAM registrou em 2011 que o país enriquecia cerca de 95 por cento do combustível de Angra no exterior (IBRAM, 2011); a conclusão da Fase 1 no fim de 2022, em 70 por cento da demanda de Angra 1, estreitou esse percentual, mas Angra 2 e a Angra 3, ainda em construção, seguem dependentes de enriquecimento contratado fora. A autorização de exportação que o INB recebeu em rodadas anteriores é condicionada e pequena. O Brasil é um dos poucos países, fora de Rússia e China, que detém tecnologia soberana de enriquecimento ainda não comercializada em escala. O valor estratégico do ativo sobe com o preço da SWU, e a Fase 2 segue no ritmo do calendário fiscal brasileiro.

A China caminha na direção oposta. A CNNC opera por volta de 11 milhões de SWU por ano de capacidade instalada e fontes chinesas projetam um acréscimo de 2 milhões de SWU por ano ou mais no Plano Quinquenal de 2026 a 2030, com a CGN se preparando para entrar no enriquecimento via joint venture (World Nuclear Association sobre o ciclo de combustível chinês). A Rosatom segue como fornecedor swing que o Ocidente tenta contornar. A Carnegie não pontua a China explicitamente, mas a conta é a mesma: cada reator que entrar em operação precisa de uma rota de combustível que não passe pela Rússia nem pela China.

O que significa

Os 13 gigawatts de capacidade nuclear contratada por hyperscalers são reais, mas a auditoria que a Carnegie publicou nesta semana deixa duas coisas claras. Primeiro, o volume é pequeno demais para fazer o que os releases sugerem sobre descarbonização da IA: renováveis e gás fazem o trabalho marginal de verdade. Segundo, a cadeia de combustível por trás dos contratos de reatores modulares pequenos é a próxima perna da operação. A expansão de Piketon pela Centrus e os US$ 2,7 bilhões do DOE para a oferta de LEU e HALEU são a parte visível. A parte invisível é quais das três ou quatro capacidades soberanas fora de Rússia e China serão capitalizadas a tempo de importar. O Brasil tem uma delas, e está se movendo mais devagar que a curva da demanda.

O que observar