A Alemanha esta fazendo uma aposta estruturada nas terras raras brasileiras, e trouxe o pacote completo: um fundo estatal de €1 bilhao, um ministro das relacoes exteriores e uma pergunta direta sobre o que seria necessario para financiar uma fabrica de imas em territorio brasileiro.
No dia 3 de julho, a Embaixada da Alemanha em Brasilia realizou um evento de parceria em terras raras que reuniu Johann Wadephul, ministro federal das Relacoes Exteriores da Alemanha, junto a representantes do Ministerio de Minas e Energia (MME), Ministerio da Fazenda, BNDES e ApexBrasil. Seis empresas com projetos brasileiros apresentaram para a delegacao alema: Aclara, Brazilian Rare Earths, Cabo Verde Mineracao, Rare Earth Americas, St George Mining e Viridis Mining and Minerals.
O que esta acontecendo
O evento nao foi uma missao comercial generica. Foi uma tentativa direcionada de combinar capital e tecnologia alemaes com projetos brasileiros de terras raras em diferentes estagios de desenvolvimento, da exploracao ao licenciamento e aos testes metalurgicos.
A mensagem alema, conforme reportado pela CNN Brasil, foi explicita: Berlin quer ser parceiro, nao apenas comprador. Isso significa participacao acionaria, transferencia de tecnologia e estruturas de offtake que vinculem a producao brasileira as cadeias de suprimento industriais alemas e da UE.
Um sinal concreto veio durante o evento, quando representantes da area de comercio e economia da embaixada alema levantaram a possibilidade de apoiar o MagBras, a iniciativa nacional brasileira de producao de imas de terras raras, e perguntaram que tipo de apoio seria necessario para avancar.
O MagBras e o projeto downstream de terras raras mais avancado da America Latina. Baseado no CIT Senai ITR em Lagoa Santa, Minas Gerais, visa construir uma cadeia domestica completa, desde a alimentacao de argila ionica ate os imas permanentes de NdFeB. O projeto recebeu R$73,3 milhoes do programa Mover do governo brasileiro e ja processou seu primeiro lote de 20 kg de carbonato de terras raras do projeto Caldeira da Meteoric Resources. Se o Fundo Alemao de Materias-Primas entrar, marcara o primeiro capital institucional estrangeiro diretamente na camada de fabricacao de imas do Brasil.
Enfoque Brasil
O Brasil detem as terceiras maiores reservas de terras raras do mundo, mas apenas uma mina esta em producao comercial: a Serra Verde em Goias, adquirida pela USA Rare Earth em abril de 2026 por aproximadamente US$2,8 bilhoes. O restante do pipeline e pre-receita, pre-construcao e faminto por capital.
As seis empresas no evento da embaixada ilustram a amplitude desse pipeline:
- Viridis Mining (projeto Colossus, Minas Gerais): recurso de 215 Mt, planta de demonstracao produzindo carbonato misto de terras raras, com decisao final de investimento prevista para o segundo semestre de 2026 e producao ate o final de 2028. Financiamento do BNDES ja garantido.
- Aclara Resources (modulo Carina, Goias): foco em terras raras pesadas (disprosio, terbio), em fase de viabilidade, com planta de separacao planejada na Louisiana, EUA. Apoio do DFC para o estudo de viabilidade.
- Brazilian Rare Earths (multiplos depositos de argila ionica): estudo de viabilidade definitivo esperado para o segundo trimestre de 2026.
- St George Mining (Araxa, Minas Gerais): recurso de 40,6 Mt de carbonatito, deposito de rocha dura com co-produto de niobio, com producao prevista para 2029.
- Rare Earth Americas (projetos Alpha e Constellation, Bahia e Minas Gerais): combinado, mais de 1 bilhao de toneladas de mineralizacao de argila ionica, com processo de IPO na NYSE American em andamento.
- Cabo Verde Mineracao: projeto de argila ionica com teores de TREO acima de 3.000 ppm, em fase inicial.
Para o Brasil, a questao estrategica e se consegue evitar a armadilha tradicional de commodity: exportar minerio nao processado enquanto importa imas acabados. O governo Lula fez da agregacao de valor local uma prioridade, e a presenca do MME, BNDES e ApexBrasil no evento da embaixada sinaliza coordenacao em nivel governamental para garantir que qualquer investimento alemao inclua compromissos downstream.
Laudemir Muller, presidente da ApexBrasil, reforcou esse enquadramento publicamente: “Nao vou chamar de preferencia, mas temos mais proximidade [com a UE]. Com algumas empresas, alguns pensamentos, algumas atitudes. Acho que a Alemanha tem essa lideranca e capacidade de fazer essa articulacao com varios fundos e empresas.”
Enfoque Estados Unidos
Os Estados Unidos tem sido o ator ocidental mais visivel em minerais criticos brasileiros. O DFC financiou o estudo de viabilidade da Aclara. A aquisicao da Serra Verde pela USA Rare Earth por US$2,8 bilhoes foi a maior transacao de terras raras no Hemisferio Ocidental. O interesse de Washington e real e capitalizado.
Mas interlocutores brasileiros, conforme reportado pela CNN Brasil, avaliam que a abordagem europeia carrega menos ruido politico e mais abertura a transferencia de tecnologia e industrializacao local. O Fundo Alemao de Materias-Primas, operado pelo KfW, e estruturado como investidor minoritario (tipicamente ~25%) ao lado de parceiros industriais, com tickets de €50 milhoes a €150 milhoes por projeto. Exige contratos de offtake vinculantes para instalacoes na Alemanha ou UE, mas nao exige que projetos brasileiros cedam controle ou relocalizem o processamento.
Essa estrutura importa. O engajamento dos EUA as vezes vem com condicoes: financiamento do DFC pode carregar condicionalidades politicas, e programas de estoque estrategico de defesa como o DLA NDS priorizam offtake do setor de defesa. O fundo alemao, por outro lado, e movido por demanda industrial: automotivo, eolico, eletronica, defesa. E um pull de demanda, nao um push de seguranca.
Para investidores e formuladores de politica dos EUA, a leitura e que a Europa agora compete diretamente pela parceria em terras raras brasileiras, e Berlin oferece um modelo que pode ser mais palatavel aos objetivos de industrializacao de Brasilia.
Enfoque China
A China domina cerca de 70% da mineracao de terras raras e 90% da separacao e producao de imas. Essa concentracao e toda a razao pela qual governos ocidentais estao no Brasil.
O evento da embaixada alema ocorre apos a propria diplomacia de Wadephul em terras raras em Pequim em junho de 2025, quando ele alertou que restricoes comerciais chinesas sobre terras raras representavam uma ameaca central a industria alema. A China respondeu dizendo que lidaria com solicitacoes europeias de licenca de forma “construtiva.” A construtividade tem limites. Os controles de exportacao de Pequim sobre galio, germanio, grafite, tungstenio e antimonio em 2024-2025 mostraram que a China trata minerais criticos como alavanca.
A resposta da UE e a diversificacao estrutural. O comissario Jozef Sikela visitou o Brasil em junho de 2026, visitou a planta de demonstracao da Viridis e selecionou quatro projetos brasileiros (incluindo a operacao de terras raras da Viridis) para colaboracao acelerada na cadeia de suprimento UE-Brasil. O evento da embaixada em 3 de julho e o follow-through: passar da intencao em nivel de comissario para o fluxo de negocios em nivel de gestor de fundo.
Para a China, o risco nao e que o Brasil substitua seu suprimento da noite para o dia. O risco e que o Brasil se torne a ancora de um pipeline ocidental de terras raras que inclui separacao no Brasil, producao de imas no Brasil ou na Europa, e uso final em veiculos eletricos e turbinas eolicas alemas. Esse pipeline nao existe hoje. Eventos como este sao como ele se construi.
O que significa
O Indice de Materiais de IA da Tantalum (TAI-M) acompanha a exposicao a terras raras atraves do ETF REMX e a demanda de semicondutores atraves do SOXX. Nenhum dos dois captura diretamente o risco em nivel de projeto brasileiro. Mas o arcabouco do indice trata terras raras como um insumo de infraestrutura de IA porque os imas de NdPr alimentam os ventiladores de resfriamento, motores e atuadores dentro dos data centers e dos veiculos eletricos que eletrificam as redes que os alimentam.
Se a Alemanha financiar a separacao e producao de imas de terras raras no Brasil, a resiliencia da cadeia de suprimento desses insumos melhora. Esse e um resultado de longo prazo, intensivo em capital. O sinal de curto prazo e geopolitico: a UE agora e uma competidora comprometida e capitalizada dos EUA e da China pela parceria mineral brasileira.
O que observar
- Financiamento do MagBras: O Fundo Alemao de Materias-Primas fara um compromisso formal? O primeiro investimento do fundo foi de €150 milhoes no projeto de litio Lionheart da Vulcan Energy em dezembro de 2024. Um ticket no MagBras seria o primeiro do fundo em terras raras e o primeiro no Brasil.
- FID da Viridis: A empresa espera decisao final de investimento no segundo semestre de 2026. Offtake ou equity alemao poderiam acelerar esse cronograma.
- Ratificacao do acordo UE-Mercosul: A visita de Wadephul incluiu advocacia pelo acordo comercial. Se ele avancar, regras de origem e protecoes de investimento para projetos de minerais criticos poderiam se tornar mais robustas.
- Integracao da Serra Verde: A aquisicao pela USA Rare Earth foi concluida em abril de 2026. A velocidade de escalada e se ela faz parcerias de offtake com compradores alemaes ou da UE definira o modelo competitivo.
- Resposta da China: Pequim tem ferramentas, pressao de precos e poder de mercado. Fique atento a movimentos de investimento ou offtake chineses em projetos brasileiros como contrapeso.