O cobalto fechou perto de US$ 56.290 por tonelada em 9 de junho, com o índice LME Cobalt (Fastmarkets MB) registrando US$ 56.548 ao longo da janela de 5 a 8 de junho. O número está cerca de 69 por cento acima do nível de um ano atrás e a poucos pontos percentuais de onde o metal iniciou 2026. O preço parou de se mover. O fluxo do metal, não.
Dois fatos explicam por que um preço congelado é a notícia. Menos da metade da cota de exportação de cobalto da República Democrática do Congo para o 4T 2025 ao 1T 2026 foi efetivamente preenchida, com apenas cerca de 7.800 toneladas liberadas para exportação entre dezembro e o fim de fevereiro, segundo fontes da Fastmarkets. E o relatório de produção da Glencore do 1T 2026, divulgado no fim de abril, registrou produção própria de cobalto de 5.800 toneladas, 3.700 toneladas abaixo do 1T 2025 (queda de 39 por cento na comparação anual), explicitamente porque “os ativos da RDC agora estão priorizando a produção de cobre, já que os estoques de cobalto acabado são suficientes para entregar plenamente os níveis de cota de curto prazo”.
A RDC, sentada sobre cerca de três quartos da oferta global de cobalto na lavra, deixou de otimizar para cobalto. Está otimizando para cobre. E a construção de infraestrutura de IA é o cliente que fez a conta fechar.
O que está acontecendo
O sistema de cotas da RDC, estabelecido em outubro de 2025 para substituir o embargo de exportação de fevereiro de 2025, alocou 96.600 toneladas para 2026 entre toda a indústria, com a CMOC sozinha recebendo cerca de 31.200 toneladas, aproximadamente 27 por cento de sua participação de 2024, segundo a Ecofin Agency. A CMOC produziu 61.073 toneladas apenas no primeiro semestre de 2025. A cota é um corte estrutural, não uma rampa de transição.
O excedente de cobalto não impediu a CMOC de investir. Em 24 de outubro de 2025, o conselho da CMOC aprovou US$ 1,08 bilhão para a Fase 2 do projeto cobre-cobalto Kisanfu. A expansão está dimensionada para adicionar cerca de 100.000 toneladas por ano de cobre, não de cobalto, com comissionamento previsto para 2027. O cobalto que sai como coproduto virou um problema a administrar, não um produto a vender.
Os números da Glencore no 1T contam a mesma história por outro ângulo. O catodo de cobre africano subiu fortemente com melhora nos teores. O cobalto africano caiu 39 por cento. O pivô está acontecendo nos mesmos poços.
O cliente é identificável. O time de energia para data centers da Wood Mackenzie estima que as cargas de IA vão elevar a demanda de cobre apenas para a infraestrutura de transmissão e distribuição de eletricidade a 1,1 milhão de toneladas por ano até 2030, com cerca de mais 700.000 toneladas fluindo para o próprio “miolo” do data center (cabeamento da instalação, barramentos e sistemas internos de potência) entre agora e o fim da década. O balanço refinado de curto prazo afrouxou. O International Copper Study Group inverteu sua projeção para 2026 em abril, passando do déficit de 150.000 toneladas que carregava em outubro de 2025 para um superávit de 96.000 toneladas, em razão de crescimento de demanda refinada menor do que o esperado (1,6 por cento ante os 2,1 por cento anteriores) e maior produção refinada secundária. A reversão não desmonta a tese estrutural de cobre para IA. Ela diz que sucata e demanda não-IA mais fraca estão absorvendo mais do balanço primário de 2026 do que a leitura de outubro assumia. O pivô da RDC continua otimizando para aquilo que a construção de IA, no fim, paga: unidades de cobre refinado, com o excedente de cobalto como externalidade.
Brasil
O Brasil ocupa uma posição desconfortável nesse cenário. O relatório de produção da Vale no 1T 2026 registrou 49,3 mil toneladas de níquel e 102,3 mil toneladas de cobre, com guidance para o ano cheio de 175 a 200 mil toneladas e 350 a 380 mil toneladas, respectivamente. O cobalto é subproduto das operações de laterita de níquel da Vale, incluindo Onça Puma no Pará (cujo segundo forno operou um trimestre completo pela primeira vez no 1T) e Voisey’s Bay, fora do Brasil. A Vale não publica cobalto como uma linha autônoma. Os volumes são pequenos. A opcionalidade importa porque um piso de preço de cobalto na era das cotas monetiza o cobalto de subproduto que historicamente ficava em rejeitos ou em margens de refino.
O FIP de Minerais Estratégicos de R$ 1 bilhão, ancorado por Vale e BNDESPAR em 2024, vem investindo capital desde o início de 2025, e tem níquel e cobalto entre suas verticais alvo. O desk cobriu a arquitetura em 26 de maio na matéria sobre o fundo BNDES-Vale. A Linha de Crédito do Plano Brasil Soberano de R$ 15 bilhões apresentada ao IBRAM em maio de 2026 fica ao lado dela, voltada a operadores estabelecidos construindo capacidade de lavra e processamento. Qualquer um dos dois canais, se direcionar alocação para capacidade brasileira de subproduto de níquel-cobalto, cai diretamente sobre o tipo de lacuna de refino que ganha valor quando o produtor dominante está restringido por cota.
O Brasil não tem refinaria de sulfato de cobalto. Essa é a peça que falta. A era da cota da RDC premia capacidade de refino fora da geografia FEOC. O Brasil tem o recurso de laterita de níquel. Ainda não tem o downstream.
Estados Unidos
Os recursos do DPA Título III desde 2023 miraram exatamente nessa lacuna. A Talon Metals, em joint venture com a Rio Tinto no projeto de níquel-cobre-cobalto Tamarack, no centro de Minnesota, assinou em setembro de 2023 um acordo de US$ 20,6 milhões com o DoD para acelerar a exploração. O CSIS, em comentário recente, propôs um mecanismo de piso de preço para cobalto nos EUA especificamente para tratar do que chamou de oferta não-RDC estruturalmente subinvestida.
A questão do piso de preço ficou menos acadêmica agora. Com o cobalto na LME a US$ 56.000, o piso já existe. As regras de origem da bateria do 30D do IRA e as definições de entidade FEOC significam que cobalto restrito por cota e de afiliação chinesa fica cada vez mais difícil de usar em packs de bateria qualificados vendidos ao mercado norte-americano. O sinal de preço e o sinal de política apontam para a mesma lacuna: capacidade de refino fora da RDC e fora da China.
China
A CMOC é o exemplo A para a leitura da China. O Kisanfu Fase 2 de US$ 1,08 bilhão foi uma aposta em cobre, não em cobalto, mas o mesmo poço produz os dois. A estratégia da CMOC é absorver o cobalto como coproduto, montar estoque, e esperar por uma expansão da cota ou por uma brecha de fiscalização. A participação da China no processamento de cobalto refinado, que o Cobalt Institute e outros dados recentes da indústria situam na faixa de 75 a 79 por cento, não é afetada pela cota da RDC. A restrição está no upstream, não no downstream.
As operações de HPAL da Tsingshan na Indonésia são o outro canal aliado à China. O subproduto de níquel-cobalto indonésio, processado na China, é a saída para qualquer comprador ocidental tentando obter unidades fora da RDC que, na prática, não saíram do perímetro FEOC.
O que isso significa
O preço estável do cobalto mascara duas forças opostas em tensão. A Fastmarkets projeta um déficit estrutural de aproximadamente 10.700 toneladas contra uma demanda perto de 292.300 toneladas em 2026. Traders citados na cobertura setorial sugeriram entre 45.000 e 65.000 toneladas se as cotas forem rigorosamente fiscalizadas. A RDC precisa da receita de royalties. A China precisa do cobalto para manter altas as taxas de utilização de suas refinarias. Nenhum dos lados quer que a cota se rompa, e nenhum quer que ela se afrouxe demais.
Para o Brasil, a pergunta é se Vale e BNDES conseguem se mover rápido o suficiente para converter a rampa de Onça Puma em uma história de crédito de cobalto não-FEOC crível antes que o sistema de cotas se afrouxe ou seja substituído por algo mais apertado. Para os EUA, a pergunta é se o dinheiro do DPA e do IRA consegue erguer capacidade de refino com o cobalto a US$ 56.000 antes que o preço derive para cima (rigor da cota) ou colapse (liberação de estoque pela CMOC). Para a China, a pergunta é por quanto tempo a economia da puxada de cobre pode subsidiar o que, na linha de cobalto, parece desconto.
O que observar
- O número de liberações de exportação da RDC no 2T 2026, esperado para meados de julho junto ao Ministério das Minas. Uma taxa de preenchimento abaixo de 70 por cento da cota trimestral aperta ainda mais o preço.
- Os resultados do 1S 2026 da CMOC, previstos para agosto, com a divulgação do estoque de cobalto. O tamanho do estoque acumulado é o ponto de alavancagem para qualquer renegociação futura da cota.
- O primeiro anúncio de aporte do FIP de Minerais Estratégicos, esperado para o 1S 2026. Uma primeira alocação em uma júnior brasileira de níquel-cobalto é o sinal de que o mandato de cobalto do fundo é real.