A Terranova, plataforma latino-americana de data centers lançada pela gestora global de investimentos Actis, iniciou esta semana as obras da primeira fase do Campus Campinas, na região metropolitana de São Paulo. A subestação tem capacidade inicial de 300 MW, com energização prevista para dezembro de 2027 e potencial de expansão até 1 GW [DataCenterDynamics, 22 de agosto de 2026].

O número de megawatts não é o dado interessante. O dado interessante é a data da encomenda dos equipamentos.

O que está acontecendo

Ângulo Brasil

O Brasil passou dois anos sendo descrito como destino de transbordo para carga que não conseguia conexão no Texas ou na Virgínia. O Campus Campinas é outro objeto: um sítio nomeado, uma subestação contratada, um acesso aprovado e uma obra iniciada. A Actis lançou a Terranova no fim do ano passado com planos de investir US$ 1,5 bilhão em três anos em Brasil, México e Chile [DataCenterDynamics, 22 de agosto de 2026].

O que faz o projeto funcionar é o sequenciamento, não a escala. O diagnóstico de Quintella é que o sistema de transmissão paulista nesses corredores não absorve outro investimento em linha de transmissão, o que significa que o ativo escasso não é terra nem tratamento tributário, e sim uma conexão entregue e energizada. A Terranova comprou uma, antes de abrir a obra.

Quintella citou o Redata, regime especial criado pelo governo para incentivar a instalação de data centers no Brasil com benefícios tributários, como possível acelerador da demanda de clientes [CNN Brasil, 15 de março de 2026]. Benefício fiscal não encurta prazo de entrega de transformador.

Ângulo Estados Unidos

A concorrência pela produção de Jundiaí é americana. Marcela Souza, vice-presidente sênior da Siemens Energy para a América Latina, disse à CNN Brasil que a compra de equipamentos é uma das demandas críticas de um projeto desse tamanho, diante da alta demanda global puxada principalmente pelos Estados Unidos. Nas palavras dela, a exportação para o mercado americano cresceu muito, e “80% das fábricas têm produção que vai para lá, coisa nunca vista antes”, em razão do crescimento da inteligência artificial e da necessidade de linhas de transmissão [CNN Brasil, 15 de março de 2026]. Um campus brasileiro disputa capacidade de uma fábrica brasileira com compradores americanos, e a resposta foi dividir a encomenda entre Jundiaí e a China.

Enquanto isso, os Estados Unidos estão reprecificando o acesso à rede para a mesma carga. Em decisão noticiada em 21 de agosto, o conselho da Tennessee Valley Authority retirou os data centers da sua classe tarifária de serviço industrial, elevando em aproximadamente 10% o que pagam pela energia, e impôs encargos iniciais de compromisso de capacidade de cerca de US$ 1,5 milhão por megawatt em novos empreendimentos, pagos ao longo de três a cinco anos. O plano integrado de recursos da TVA aponta necessidade de 11 a 32 GW de geração adicional na sua área de concessão [DataCenterDynamics, 21 de agosto de 2026]. Três dias depois, foi noticiado que a AEP Ohio obteve de cinco empresas de data center, Meta, Amazon, QTS, SoftBank Energy e Google, US$ 18 milhões para o seu programa de assistência a contas de energia Neighbor to Neighbor, sendo o maior compromisso individual o da Meta, de US$ 2 milhões por ano durante cinco anos [DataCenterDynamics, 24 de agosto de 2026].

Aritmética da mesa, comparando coisas diferentes de propósito: ao câmbio de R$ 5,20 por dólar implícito nos números da DCD, R$ 100 milhões de subestação e transformadores para 300 MW equivalem a pelo menos US$ 64 mil por megawatt de equipamento. O novo encargo inicial de compromisso de capacidade da TVA é de US$ 1,5 milhão por megawatt. O equipamento representa cerca de 4% do que um empreendedor americano hoje deposita em uma única concessionária apenas pelo direito de se conectar. Um é capex em aço e cobre que ficam seus. O outro é encargo por capacidade que outra parte constrói.

Ângulo China

A encomenda de transformadores da Terranova está dividida entre Jundiaí e a China [CNN Brasil, 15 de março de 2026]. Esse é o detalhe concreto a guardar. Esta mesa passou dois anos escrevendo sobre a capacidade chinesa a montante das construções ocidentais, em gálio, germânio, ímãs de terras raras e grafite. Aqui ela aparece também a jusante, dentro do equipamento elétrico acabado de um campus brasileiro de IA, e não por razões de política pública. Está ali porque uma fábrica em Jundiaí está enviando a maior parte da sua produção para o norte.

O que isso significa

O Tantalum AI Materials Index (TAI) marcou 108,8 em 22 de agosto de 2026, alta de 2,74% na comparação semanal, partindo de 105,9 [arquivo de índices da Tantalum]. A história de materiais dentro do Campus Campinas não é exótica. Dois transformadores de potência de 150 MVA e uma subestação isolada a gás são aço elétrico e enrolamentos de cobre, na mesma carteira global de pedidos de qualquer campus americano. A lição transferível para o Sul Global é disciplina de calendário de compras, e não capital. A primeira fase sai por pelo menos US$ 1,67 milhão por megawatt de capacidade inicial de subestação, pela aritmética da mesa, o que não é um cheque grande pelos padrões dos hyperscalers. O que ela comprou foi um lugar em uma fila que se resolve em 2027.

O que observar

  1. Dezembro de 2027, energização da subestação. A Siemens Energy programou a entrega para 2027 e a Terranova programou a subestação para dezembro de 2027. Se as unidades de Jundiaí atrasarem enquanto as chinesas chegam, ou o inverso, a decisão de dividir o fornecimento será avaliada em público.
  2. A assinatura do PPA. Nenhum contrato de longo prazo de compra de energia estava assinado em março, com a Serena citada como uma das candidatas. Um PPA assinado em Campinas seria o primeiro sinal firme de preço do que custa carga de IA no Brasil.
  3. O cliente âncora. Nenhum cliente foi nomeado, e a própria leitura da Terranova é que o mercado comprador é restrito, formado principalmente por big techs e empresas de processamento de dados. Um nome de hyperscaler aqui levaria o Brasil de um mercado de construir e esperar para um mercado contratado, e empurraria os próximos 700 MW de subestação para a mesma fila de transformadores.