O Congresso do Brasil está se movendo rapidamente para criar uma política nacional de minerais críticos e estratégicos, e a escala do que está em jogo está ficando clara. Uma análise da InfoAmazonia com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) até 11 de julho de 2026 identifica 4.795 processos minerários ativos para minerais de alta tecnologia na Amazônia Legal, cobrindo 23 milhões de hectares. Dois terços desses processos foram abertos após 2016. O arcabouço legislativo para acelerá-los está agora em negociação ativa.

O que está acontecendo

Os 23 milhões de hectares em processo não são um erro de digitação. É mais de 150 vezes a área da cidade de São Paulo. Os minerais sendo alvo são diretamente relevantes para a construção de infraestrutura de IA: cobre (67,5% dos processos), estanho (11,6%), níquel (5,9%), tântalo (4%) e terras raras (2,6%). A concentração geográfica é forte: o Pará concentra 47% dos processos, Mato Grosso 19% e Rondônia 8,4%.

Aqui está o detalhe crítico: quase 80% desses processos (3.805 cobrindo 17,7 milhões de hectares) ainda estão na fase de pesquisa. Apenas 60 são concessões de lavra efetivas. Outros 150 estão na fase de requerimento, e 779 estão sob posse da União e liberados para concessão. O pipeline é enorme. A produção, não.

A ANM define minerais críticos e estratégicos como aqueles essenciais para o desenvolvimento econômico com aplicações em alta tecnologia, defesa e transição energética. Uma resolução do Ministério de Minas e Energia (MME) de 2021 divide 22 minerais estratégicos em três categorias: insumos dependentes de importação como fosfato e potássio; minerais de alta tecnologia incluindo cobre, estanho, níquel, tântalo e terras raras; e minerais onde o Brasil tem vantagem competitiva, como minério de ferro e bauxita.

Enfoque Brasil

O impulso legislativo é o que transforma isso de um inventário geológico em uma história de política ativa. Dois projetos de lei estão em tramitação no Congresso, e sua convergência está acelerando.

O PL 2780/2024, de autoria do deputado Zé Silva (União-MG), foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 6 de maio de 2026 e encaminhado ao Senado. Propõe o Plano Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, o Conselho Nacional para Industrialização, um cadastro de projetos estratégicos, um sistema de rastreabilidade da cadeia produtiva e um fundo garantidor, entre outros instrumentos. O senador Beto Faro (PT-PA) apresentou requerimento de urgência em 2 de julho, ainda pendente de avaliação no Plenário.

O PL 4443/2025, de autoria do senador Renan Calheiros (MDB-AL), tramita no Senado desde setembro de 2025. Foi aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos em 9 de dezembro de 2025 e seguiu para a Comissão de Serviços de Infraestrutura. Em 14 de julho de 2026, o relator Wilder Morais (PL-GO) apresentou um substitutivo que incorporou as estruturas de governança, financiamento, pesquisa e inovação do PL 2780 ao PL 4443. O texto agora tramita como um único projeto de caráter terminativo na Comissão de Infraestrutura, ou seja, se aprovado ali, segue direto para a Câmara sem passar por outras comissões no Senado.

Os projetos criam as Zonas de Processamento e Transformação Mineral (ZPTM), áreas com intensa atividade mineral onde o processamento e a transformação industrial seriam priorizados e facilitados. Projetos em ZPTMs ficariam sujeitos à Licença Ambiental Especial (LAE), criada pela Lei Geral de Licenciamento Ambiental aprovada em agosto de 2025 e em vigor desde 4 de fevereiro de 2026. A LAE dá às autoridades licenciadoras 12 meses para decidir sobre projetos estratégicos, uma aceleração significativa em relação aos prazos anteriores.

As implicações ambientais e de direitos indígenas são o ponto de tensão. A análise da InfoAmazonia encontrou 386 processos minerários para minerais de alta tecnologia sobrepondo-se ou fazendo fronteira com 69 terras indígenas, cobrindo 1,52 milhão de hectares. Os territórios mais atingidos são Aracá-Padauiri (76 processos) no Amazonas; Xikrin do Rio Cateté (27), Sawré Muybu (21) e Badjonkore (18) no Pará; e Yanomami (19) em Roraima e Amazonas. Há ainda 1.076 processos sobrepondo-se ou situados dentro de unidades de conservação, cobrindo 5 milhões de hectares.

O caso do Jamanxim é o exemplo mais concreto. A Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, concentra 124 requerimentos de pesquisa de cobre em 770 mil dos seus 1,3 milhão de hectares, quase todos da Anglo American. Em 15 de julho de 2026, o Senado aprovou o PL 2.486/2026, que reduz a Flona em 486 mil hectares e reclassifica essa área como Área de Proteção Ambiental (APA), categoria de uso menos restritiva. O projeto agora aguarda sanção presidencial.

Enfoque Estados Unidos

Para investidores e parceiros de offtake dos EUA, o calendário legislativo importa porque define quando o cobre brasileiro poderia entrar materialmente nos mercados globais. O gargalo entre pesquisa e produção é a restrição vinculante: 3.805 processos em fase de pesquisa contra 60 concessões efetivas. Os projetos de lei visam comprimir essa lacuna por meio das ZPTMs, licenciamento acelerado e incentivos de crédito.

O risco está do outro lado da balança. O prazo de 12 meses da LAE não inclui consulta livre, prévia e informada às comunidades indígenas, conforme exigido pela Convenção 169 da OIT. Grupos ambientalistas e organizações indígenas sinalizaram isso como um risco de litígio que poderia congelar projetos mesmo após o licenciamento. O Conselho Nacional para Industrialização proposto nos projetos inclui até 15 representantes de órgãos federais, estados, municípios, setor privado e universidades, mas nenhuma cadeira para a sociedade civil, uma estrutura que críticos chamam de antidemocrática.

Se o arcabouço for aprovado e sobreviver à revisão judicial, o Brasil se torna um destino mais previsível para capital de desenvolvimento de cobre. Se desencadear uma onda de liminares, o pipeline de 23 milhões de hectares permanece teórico.

Enfoque China

A China é o comparador implícito nesta história, não um ator direto. A China controla cerca de 60% da capacidade global de processamento de cobre. O Brasil exporta concentrado, não cátodo. A lógica das ZPTMs é sobre captura de valor agregado, mas o Brasil tem infraestrutura limitada de fundição ou refino na região amazônica. Sem isso, o valor agregado permanece na China, independentemente de onde o minério seja extraído.

A questão estratégica para Pequim é se uma aceleração do cobre brasileiro altera o mercado global de concentrado o suficiente para afetar os preços de offtake chineses. Com 80% do pipeline amazônico ainda em pesquisa, essa é uma questão para 2028-2030, não para 2026. Mas o sinal legislativo é claro: o Brasil pretende competir pelo capital que busca suprimento não-chinês.

O que significa

A construção de infraestrutura de IA puxa a demanda de cobre por meio da distribuição de energia em data centers, interconexão de rede e infraestrutura de veículos elétricos. A Agência Internacional de Energia e a Copper Development Association sinalizaram o cobre como um insumo com restrição de oferta para a transição energética e infraestrutura digital. A Amazônia brasileira detém um grande pipeline de exploração, mas exploração não é produção.

O arcabouço legislativo em tramitação no Congresso é projetado para mudar essa proporção. Se terá sucesso depende de três variáveis: o texto final do projeto mesclado, a resposta judicial às aplicações da LAE em áreas sensíveis, e o investimento em infraestrutura (energia, ferrovia, porto) necessário para mover concentrado da Amazônia para os mercados globais. Os projetos tratam de licenciamento. Não tratam de logística.

O que observar


Fontes: Análise da InfoAmazonia com dados da ANM (11 de julho de 2026); Senado Notícias (15 de julho de 2026); Câmara dos Deputados PL 2780/2024; Lei Geral de Licenciamento Ambiental (agosto de 2025).