O que está acontecendo

O setor brasileiro de minerais críticos está em um ponto de inflexão. O país detém depósitos de classe mundial de nióbio, terras raras, lítio e grafita. A demanda global por esses materiais está se acelerando à medida que a construção de infraestrutura de IA, a aquisição em defesa e os investimentos em transição energética convergem. Ainda assim, o arcabouço regulatório do Brasil não acompanhou a oportunidade.

A ANM (Agência Nacional de Mineração) permanece subfinanciada e com poucos funcionários em relação ao pipeline de licenciamento que precisa processar. Os prazos de licenciamento ambiental rotineiramente se estendem por 3 a 5 anos, em comparação com 12 a 18 meses no Chile ou na Austrália. A capacidade de processamento downstream é mínima, o Brasil exporta concentrado bruto enquanto importa materiais refinados com markup.

Essa lacuna entre dotação geológica e capacidade institucional é o gargalo principal do potencial brasileiro em minerais críticos.

Ângulo Brasil

Os números ilustram a oportunidade e o problema:

O gargalo regulatório é estrutural. A fila de licenciamento da ANM cresceu mais rápido do que seu quadro de pessoal. As agências ambientais no nível estadual (FEAM em Minas Gerais, CETESB em São Paulo) operam com padrões e prazos diferentes, criando falhas de coordenação que adicionam anos aos cronogramas dos projetos.

Ângulo EUA

Os EUA identificaram o Brasil como parceiro prioritário para diversificação da cadeia de suprimento de minerais críticos sob o Defense Production Act e programas relacionados do DoE/DoD. A lógica é sólida: o Brasil não é a China, não é a Rússia, não é a RDC. É uma democracia com Estado de Direito estabelecido e um setor de mineração que já opera em escala.

Mas o engajamento dos EUA tem sido fragmentado. O DPA financiou estudos e exploração em estágio inicial, mas não a infraestrutura ou a capacidade de processamento que tornariam a oferta brasileira competitiva. A U.S. International Development Finance Corporation (DFC) aprovou um pacote de financiamento de US$565 milhões para a Serra Verde em 2025 [divulgações DFC, 2025], mas nenhum grande projeto brasileiro garantiu até agora apoio do US EXIM Bank.

Para investidores e construtores americanos, a oportunidade é antecipar-se à modernização regulatória que eventualmente vai acontecer. O risco é que “eventualmente” se estenda mais do que o capital consegue esperar.

Ângulo China

O domínio chinês no processamento e refino de terras raras cria a abertura estratégica para o Brasil. Os controles de exportação de Pequim sobre gálio, germânio e grafita, anunciados em 2023 e endurecidos em 2024, forçaram importadores a acelerar planos de diversificação.

O capital chinês também está ativo no Brasil. A CNMC (China Nonferrous Metal Mining) explorou parcerias em terras raras. Compradores chineses se aproximaram da Sigma Lithium e da Serra Verde. A questão é se o Brasil vai aceitar investimento chinês em extração enquanto constrói capacidade soberana em processamento, um equilíbrio difícil de atingir.

O que isso significa

O setor brasileiro de minerais críticos vai crescer. A dotação geológica é significativa demais e a demanda global persistente demais para qualquer outro resultado. A questão é a velocidade e a distribuição desse crescimento.

Sem reforma regulatória, o Brasil continuará exportador de matérias-primas, capturando o segmento de menor valor da cadeia de suprimento enquanto importa produtos refinados a preços definidos pela capacidade de processamento chinesa. Com reforma, licenciamento simplificado, coordenação federal de padrões ambientais e investimento direcionado em processamento downstream, o Brasil poderia capturar toda a cadeia de valor da mina ao ímã, do espodumênio ao pó catódico.

A janela para essa transição é estreita. A construção de infraestrutura de IA está acontecendo agora. As cadeias de suprimento de baterias estão sendo travadas agora. O arcabouço regulatório do Brasil precisa acompanhar a velocidade das indústrias que espera abastecer.

O que observar